A Verdade Sobre Negociação De Opções Binárias

Mes estudos para o CACD - Bruno Pereira Rezende

Livro do diplomata Bruno Pereira Rezende
INTRODUÇÃO
📷📷Desde quando comecei os estudos para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD), li dezenas de recomendações de leituras, de guias de estudos extraoficiais, de dicas sobre o concurso, sobre cursinhos preparatórios etc. Sem dúvida, ter acesso a tantas informações úteis, vindas de diversas fontes, foi fundamental para que eu pudesse fazer algumas escolhas certas em minha preparação, depois de algumas vacilações iniciais. Mesmo assim, além de a maioria das informações ter sido conseguida de maneira dispersa, muitos foram os erros que acho que eu poderia haver evitado. Por isso, achei que poderia ser útil reunir essas informações que coletei, adicionando um pouco de minha experiência com os estudos preparatórios para o CACD neste documento.
Além disso, muitas pessoas, entre conhecidos e desconhecidos, já vieram me pedir sugestões de leituras, de métodos de estudo, de cursinhos preparatórios etc., e percebi que, ainda que sempre houvesse alguma diferenciação entre as respostas, eu acabava repetindo muitas coisas. É justamente isso o que me motivou a escrever este documento – que, por não ser (nem pretender ser) um guia, um manual ou qualquer coisa do tipo, não sei bem como chamá-lo, então fica como “documento” mesmo, um relato de minhas experiências de estudos para o CACD. Espero que possa ajudar os interessados a encontrar, ao menos, uma luz inicial para que não fiquem tão perdidos nos estudos e na preparação para o concurso.
Não custa lembrar que este documento representa, obviamente, apenas a opinião pessoal do autor, sem qualquer vínculo com o Ministério das Relações Exteriores, com o Instituto Rio Branco ou com o governo brasileiro. Como já disse, também não pretendo que seja uma espécie de guia infalível para passar no concurso. Além disso, o concurso tem sofrido modificações frequentes nos últimos anos, então pode ser que algumas coisas do que você lerá a seguir fiquem ultrapassadas daqui a um ou dois concursos. De todo modo, algumas coisas são básicas e podem ser aplicadas a qualquer situação de prova que vier a aparecer no CACD, e é necessário ter o discernimento necessário para aplicar algumas coisas do que falarei aqui a determinados contextos. Caso você tenha dúvidas, sugestões ou críticas, fique à vontade e envie-as para [[email protected] ](mailto:[email protected])(se, por acaso, você tiver outro email meu, prefiro que envie para este, pois, assim, recebo tudo mais organizado em meu Gmail). Se tiver comentários ou correções acerca deste material, peço, por favor, que também envie para esse email, para que eu possa incluir tais sugestões em futura revisão do documento.
Além desta breve introdução e de uma também brevíssima conclusão, este documento tem quatro partes. Na primeira, trato, rapidamente, da carreira de Diplomata: o que faz, quanto ganha, como vai para o exterior etc. É mais uma descrição bem ampla e rápida, apenas para situar quem, porventura, estiver um pouco mais perdido. Se não estiver interessado, pode pular para as partes seguintes, se qualquer prejuízo para seu bom entendimento. Na segunda parte, trato do concurso: como funciona, quais são os pré-requisitos para ser diplomata, quais são as fases do concurso etc. Mais uma vez, se não interessar, pule direto para a parte seguinte. Na parte três, falo sobre a preparação para o concurso (antes e durante), com indicações de cursinhos, de professores particulares etc. Por fim, na quarta parte, enumero algumas sugestões de leituras (tanto próprias quanto coletadas de diversas fontes), com as devidas considerações pessoais sobre cada uma. Antes de tudo, antecipo que não pretendo exaurir toda a bibliografia necessária para a aprovação, afinal, a cada ano, o concurso cobra alguns temas específicos. O que fiz foi uma lista de obras que auxiliaram em minha preparação (e, além disso, também enumerei muitas sugestões que recebi, mas não tive tempo ou vontade de ler – o que também significa que, por mais interessante que seja, você não terá tempo de ler tudo o que lhe recomendam por aí, o que torna necessário é necessário fazer algumas escolhas; minha intenção é auxiliá-lo nesse sentido, na medida do possível).
Este documento é de uso público e livre, com reprodução parcial ou integral autorizada, desde que citada a fonte. Sem mais, passemos ao que interessa.
Parte I – A Carreira de Diplomata
INTRODUÇÃO
Em primeiro lugar, rápida apresentação sobre mim. Meu nome é Bruno Rezende, tenho 22 anos e fui aprovado no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) de 2011. Sou graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (turma LXII, 2007-20110), e não tinha certeza de que queria diplomacia até o meio da universidade. Não sei dizer o que me fez escolher a diplomacia, não era um sonho de infância ou coisa do tipo, e não tenho familiares na carreira. Acho que me interessei por um conjunto de aspectos da carreira. Comecei a preparar-me para o CACD em meados de 2010, assunto tratado na Parte III, sobre a preparação para o concurso.
Para maiores informações sobre o Ministério das Relações Exteriores (MRE), sobre o Instituto Rio Branco (IRBr), sobre a vida de diplomata etc., você pode acessar os endereços:
- Página do MRE: http://www.itamaraty.gov.b
- Página do IRBr: http://www.institutoriobranco.mre.gov.bpt-b
- Canal do MRE no YouTube: http://www.youtube.com/mrebrasil/
- Blog “Jovens Diplomatas”: http://jovensdiplomatas.wordpress.com/
- Comunidade “Coisas da Diplomacia” no Orkut (como o Orkut está ultrapassado, procurei reunir todas as informações úteis sobre o concurso que encontrei por lá neste documento, para que vocês não tenham de entrar lá, para procurar essas informações):
http://www.orkut.com.bMain#Community?cmm=40073
- Comunidade “Instituto Rio Branco” no Facebook: http://www.facebook.com/groups/institutoriobranco/
Com certeza, há vários outros blogs (tanto sobre a carreira quanto sobre a vida de diplomata), mas não conheço muitos. Se tiver sugestões, favor enviá-las para [[email protected].](mailto:[email protected])
Além disso, na obra O Instituto Rio Branco e a Diplomacia Brasileira: um estudo de carreira e socialização (Ed. FGV, 2007), a autora Cristina Patriota de Moura relata aspectos importantes da vida diplomática daqueles que ingressam na carreira. Há muitas informações desatualizadas (principalmente com relação ao concurso), mas há algumas coisas interessantes sobre a carreira, e o livro é bem curto.
A DIPLOMACIA E O TRABALHO DO DIPLOMATA
Com a intensificação das relações internacionais contemporâneas e com as mudanças em curso no contexto internacional, a demanda de aprimoramento da cooperação entre povos e países tem conferido destaque à atuação da diplomacia. Como o senso comum pode indicar corretamente, o
diplomata é o funcionário público que lida com o auxílio à Presidência da República na formulação da política externa brasileira, com a condução das relações da República Federativa do Brasil com os demais países, com a representação brasileira nos fóruns e nas organizações internacionais de que o país faz parte e com o apoio aos cidadãos brasileiros residentes ou em trânsito no exterior. Isso todo mundo que quer fazer o concurso já sabe (assim espero).
Acho que existem certos mitos acerca da profissão de diplomata. Muitos acham que não irão mais pagar multa de trânsito, que não poderão ser presos, que nunca mais pegarão fila em aeroporto etc. Em primeiro lugar, não custa lembrar que as imunidades a que se referem as Convenções de Viena sobre Relações Diplomáticas e sobre Relações Consulares só se aplicam aos diplomatas no exterior (e nos países em que estão acreditados). No Brasil, os diplomatas são cidadãos como quaisquer outros. Além disso, imunidade não é sinônimo de impunidade, então não ache que as imunidades são as maiores vantagens da vida de um diplomata. O propósito das imunidades é apenas o de tornar possível o trabalho do diplomata no exterior, sem empecilhos mínimos que poderiam obstar o bom exercício da profissão. Isso não impede que diplomatas sejam revistados em aeroportos, precisem de vistos, possam ser julgados, no Brasil, por crimes cometidos no exterior etc.
Muitos também pensam que irão rodar o mundo em primeira classe, hospedar-se em palácios suntuosos, passear de iate de luxo no Mediterrâneo e comer caviar na cerimônia de casamento do príncipe do Reino Unido. Outros ainda acham que ficarão ricos, investirão todo o dinheiro que ganharem na Bovespa e, com três anos de carreira, já estarão próximos do segundo milhão. Se você quer ter tudo isso, você está no concurso errado, você precisa de um concurso não para diplomata, mas para marajá. Obviamente, não tenho experiência suficiente na carreira para dizer qualquer coisa, digo apenas o que já li e ouvi de diversos comentários por aí. É fato que há carreiras públicas com salários mais altos. Logo, se você tiver o sonho de ficar rico com o salário de servidor público, elas podem vir a ser mais úteis nesse sentido. Há não muito tempo, em 2006, a remuneração inicial do Terceiro-Secretário (cargo inicial da carreira de diplomata), no Brasil, era de R$ 4.615,53. Considerando que o custo de vida em Brasília é bastante alto, não dava para viver de maneira tão abastada, como alguns parecem pretender. É necessário, entretanto, notar que houve uma evolução significativa no aspecto salarial, nos últimos cinco anos (veja a seç~o seguinte, “Carreira e Sal|rios). De todo modo, já vi vários diplomatas com muitos anos de carreira dizerem: “se quiser ficar rico, procure outra profissão”. O salário atual ajuda, mas não deve ser sua única motivação.
H| um texto ótimo disponível na internet: “O que é ser diplomata”, de César Bonamigo, que reproduzo a seguir.
O Curso Rio Branco, que frequentei em sua primeira edição, em 1998, pediu-me para escrever sobre o que é ser diplomata. Tarefa difícil, pois a mesma pergunta feita a diferentes diplomatas resultaria, seguramente, em respostas diferentes, umas mais glamourosas, outras menos, umas ressaltando as vantagens, outras as desvantagens, e não seria diferente se a pergunta tratasse de outra carreira qualquer. Em vez de falar de minhas impressões pessoais, portanto, tentarei, na medida do possível, reunir observações tidas como “senso comum” entre diplomatas da minha geraç~o.
Considero muito importante que o candidato ao Instituto Rio Branco se informe sobre a realidade da carreira diplomática, suas vantagens e desvantagens, e que dose suas expectativas de acordo. Uma expectativa bem dosada não gera desencanto nem frustração. A carreira oferece um pacote de coisas boas (como a oportunidade de conhecer o mundo, de atuar na área política e econômica, de conhecer gente interessante etc.) e outras não tão boas (uma certa dose de burocracia, de hierarquia e dificuldades no equacionamento da vida familiar). Cabe ao candidato inferir se esse pacote poderá ou não fazê-lo feliz.
O PAPEL DO DIPLOMATA
Para se compreender o papel do diplomata, vale recordar, inicialmente, que as grandes diretrizes da política externa são dadas pelo Presidente da República, eleito diretamente pelo voto popular, e pelo Ministro das Relações Exteriores, por ele designado. Os diplomatas são agentes políticos do Governo, encarregados da implementação dessa política externa. São também servidores públicos, cuja função, como diz o nome, é servir, tendo em conta sua especialização nos temas e funções diplomáticos.
Como se sabe, é função da diplomacia representar o Brasil perante a comunidade internacional. Por um lado, nenhum diplomata foi eleito pelo povo para falar em nome do Brasil. É importante ter em mente, portanto, que a legitimidade de sua ação deriva da legitimidade do Presidente da República, cujas orientações ele deve seguir. Por outro lado, os governos se passam e o corpo diplomático permanece, constituindo elemento importante de continuidade da política externa brasileira. É tarefa essencial do diplomata buscar identificar o “interesse nacional”. Em negociações internacionais, a diplomacia frequentemente precisa arbitrar entre interesses de diferentes setores da sociedade, não raro divergentes, e ponderar entre objetivos econômicos, políticos e estratégicos, com vistas a identificar os interesses maiores do Estado brasileiro.
Se, no plano externo, o Ministério das Relações Exteriores é a face do Brasil perante a comunidade de Estados e Organizações Internacionais, no plano interno, ele se relaciona com a Presidência da República, os demais Ministérios e órgãos da administração federal, o Congresso, o Poder Judiciário, os Estados e Municípios da Federação e, naturalmente, com a sociedade civil, por meio de Organizações Não Governamentais (ONGs), da Academia e de associações patronais e trabalhistas, sempre tendo em vista a identificação do interesse nacional.
O TRABALHO DO DIPLOMATA
Tradicionalmente, as funções da diplomacia são representar (o Estado brasileiro perante a comunidade internacional), negociar (defender os interesses brasileiros junto a essa comunidade) e informar (a Secretaria de Estado, em Brasília, sobre os temas de interesse brasileiro no mundo). São também funções da diplomacia brasileira a defesa dos interesses dos cidadãos brasileiros no exterior, o que é feito por meio da rede consular, e a promoção de interesses do País no exterior, tais como interesses econômico-comerciais, culturais, científicos e tecnológicos, entre outros.
No exercício dessas diferentes funções, o trabalho do diplomata poderá ser, igualmente, muito variado. Para começar, cerca de metade dos mil1 diplomatas que integram o Serviço Exterior atua no Brasil, e a outra metade nos Postos no exterior (Embaixadas, Missões, Consulados e Vice-Consulados). Em Brasília, o diplomata desempenha funções nas áreas política, econômica e administrativa, podendo cuidar de temas tão diversos quanto comércio internacional, integração regional (Mercosul), política bilateral (relacionamento do Brasil com outros países e blocos), direitos humanos, meio ambiente ou administração física e financeira do Ministério. Poderá atuar, ainda, no Cerimonial (organização dos encontros entre autoridades brasileiras e estrangeiras, no Brasil e no exterior) ou no relacionamento do Ministério com a sociedade (imprensa, Congresso, Estados e municípios, Academia, etc.).
No exterior, também, o trabalho dependerá do Posto em questão. As Embaixadas são representações do Estado brasileiro junto aos outros Estados, situadas sempre nas capitais, e desempenham as funções tradicionais da diplomacia (representar, negociar, informar), além de promoverem o Brasil junto a esses Estados. Os Consulados, Vice-Consulados e setores consulares de Embaixadas podem situar-se na capital do país ou em outra cidade onde haja uma comunidade brasileira expressiva. O trabalho nesses Postos é orientado à defesa dos interesses dos cidadãos brasileiros no exterior. Nos Postos multilaterais (ONU, OMC, FAO, UNESCO, UNICEF, OEA etc.), que podem ter natureza política, econômica ou estratégica, o trabalho envolve, normalmente, a representação e a negociação dos interesses nacionais.
O INGRESSO NA CARREIRA
A carreira diplomática se inicia, necessariamente, com a aprovação no concurso do Instituto Rio Branco (Informações sobre o concurso podem ser obtidas no site http://www2.mre.gov.birbindex.htm). Para isso, só conta a competência – e, talvez, a sorte – do candidato. Indicações políticas não ajudam.
AS REMOÇÕES
Após os dois anos de formação no IRBr , o diplomata trabalhará em Brasília por pelo menos um ano. Depois, iniciam-se ciclos de mudança para o exterior e retornos a Brasília. Normalmente, o diplomata vai para o exterior, onde fica três anos em um Posto, mais três anos em outro Posto, e retorna a Brasília, onde fica alguns anos, até o início de novo ciclo. Mas há espaço para flexibilidades. O diplomata poderá sair para fazer um Posto apenas, ou fazer três Postos seguidos antes de retornar a Brasília. Isso dependerá da conveniência pessoal de cada um. Ao final da carreira, o diplomata terá passado vários anos no exterior e vários no Brasil, e essa proporção dependerá essencialmente das escolhas feitas pelo próprio diplomata. Para evitar que alguns diplomatas fiquem sempre nos “melhores Postos” – um critério, aliás, muito relativo – e outros em Postos menos privilegiados, os Postos no exterior estão divididos em [quatro] categorias, [A, B, C e D], obedecendo a critérios não apenas de qualidade de vida, mas também geográficos, e é seguido um sistema de rodízio: após fazer um Posto C, por exemplo, o diplomata terá direito a fazer um Posto A [ou B], e após fazer um Posto A, terá que fazer um Posto [B, C ou D].
AS PROMOÇÕES
Ao tomar posse no Serviço Exterior, o candidato aprovado no concurso torna-se Terceiro-Secretário. É o primeiro degrau de uma escalada de promoções que inclui, ainda, Segundo-Secretário, Primeiro-
-Secretário, Conselheiro, Ministro de Segunda Classe (costuma-se dizer apenas “Ministro”) e Ministro de Primeira Classe (costuma-se dizer apenas “Embaixador”), nessa ordem. Exceto pela primeira promoção, de Terceiro para Segundo-Secretário, que se dá por tempo (quinze Terceiros Secretários são promovidos a cada semestre), todas as demais dependem do mérito, bem como da articulação política do diplomata. Nem todo diplomata chega a Embaixador. Cada vez mais, a competição na carreira é intensa e muitos ficam no meio do caminho. Mas, não se preocupem e também não se iludam: a felicidade não está no fim, mas ao longo do caminho!
DIRECIONAMENTO DA CARREIRA
Um questionamento frequente diz respeito à possibilidade de direcionamento da carreira para áreas específicas. É possível, sim, direcionar uma carreira para um tema (digamos, comércio internacional, direitos humanos, meio ambiente etc.) ou mesmo para uma região do mundo (como a Ásia, as Américas ou a África, por exemplo), mas isso não é um direito garantido e poderá não ser sempre possível. É preciso ter em mente que a carreira diplomática envolve aspectos políticos, econômicos e administrativos, e que existem funções a serem desempenhadas em postos multilaterais e bilaterais em todo o mundo, e n~o só nos países mais “interessantes”. Diplomatas est~o envolvidos em todas essas variantes e, ao longo de uma carreira, ainda que seja possível uma certa especialização, é provável que o diplomata, em algum momento, atue em áreas distintas daquela em que gostaria de se concentrar.
ASPECTOS PRÁTICOS E PESSOAIS
É claro que a vida é muito mais que promoções e remoções, e é inevitável que o candidato queira saber mais sobre a carreira que o papel do diplomata. Todos precisamos cuidar do nosso dinheiro, da saúde, da família, dos nossos interesses pessoais. Eu tentarei trazem um pouco de luz sobre esses aspectos.
DINHEIRO
Comecemos pelo dinheiro, que é assunto que interessa a todos. Em termos absolutos, os diplomatas ganham mais quando estão no exterior do que quando estão em Brasília. O salário no exterior, no entanto, é ajustado em função do custo de vida local, que é frequentemente maior que no Brasil. Ou seja, ganha-se mais, mas gasta-se mais. Se o diplomata conseguirá ou não economizar dependerá i) do salário específico do Posto , ii) do custo de vida local, iii) do câmbio entre a moeda local e o dólar, iv) do fato de ele ter ou não um ou mais filhos na escola e, principalmente, v) de sua propensão ao consumo. Aqui, não há regra geral. No Brasil, os salários têm sofrido um constante desgaste, especialmente em comparação com outras carreiras do Governo Federal, frequentemente obrigando o diplomata a economizar no exterior para gastar em Brasília, se quiser manter seu padrão de vida. Os diplomatas, enfim, levam uma vida de classe média alta, e a certeza de que não se ficará rico de verdade é compensada pela estabilidade do emprego (que não é de se desprezar, nos dias de hoje) e pela expectativa de que seus filhos (quando for o caso) terão uma boa educação, mesmo para padrões internacionais.
SAÚDE
Os diplomatas têm um seguro de saúde internacional que, como não poderia deixar de ser, tem vantagens e desvantagens. O lado bom é que ele cobre consultas com o médico de sua escolha, mesmo que seja um centro de excelência internacional. O lado ruim é que, na maioria das vezes, é preciso fazer o desembolso (até um teto determinado) para depois ser reembolsado, geralmente em 80% do valor, o que obriga o diplomata a manter uma reserva financeira de segurança.
FAMÍLIA : O CÔNJUGE
Eu mencionei, entre as coisas n~o t~o boas da carreira, “dificuldades no equacionamento da vida familiar”. A primeira dificuldade é o que fará o seu cônjuge (quando for o caso) quando vocês se mudarem para Brasília e, principalmente, quando forem para o exterior. Num mundo em que as famílias dependem, cada vez mais, de dois salários, equacionar a carreira do cônjuge é um problema recorrente. Ao contrário de certos países desenvolvidos, o Itamaraty não adota a política de empregar ou pagar salários a cônjuges de diplomatas. Na prática, cada um se vira como pode. Em alguns países é possível trabalhar. Fazer um mestrado ou doutorado é uma opção. Ter filhos é outra...
Mais uma vez, não há regra geral, e cada caso é um caso. O equacionamento da carreira do cônjuge costuma afetar principalmente – mas não apenas – as mulheres, já que, por motivos culturais, é mais comum o a mulher desistir de sua carreira para seguir o marido que o contrário2.
CASAMENTO ENTRE DIPLOMATAS
Os casamentos entre diplomatas não são raros. É uma situação que tem a vantagem de que ambos têm uma carreira e o casal tem dois salários. A desvantagem é a dificuldade adicional em conseguir que ambos sejam removidos para o mesmo Posto no exterior. A questão não é que o Ministério vá separar esses casais, mas que se pode levar mais tempo para conseguir duas vagas num mesmo Posto. Antigamente, eram frequentes os casos em que as mulheres interrompiam temporariamente suas carreiras para acompanhar os maridos. Hoje em dia, essa situação é exceção, não a regra.
FILHOS
Não posso falar com conhecimento de causa sobre filhos, mas vejo o quanto meus colegas se desdobram para dar-lhes uma boa educação. Uma questão central é a escolha da escola dos filhos, no Brasil e no exterior. No Brasil, a escola será normalmente brasileira, com ensino de idiomas, mas poderá ser a americana ou a francesa, que mantém o mesmo currículo e os mesmos períodos escolares em quase todo o mundo. No exterior, as escolas americana e francesa são as opções mais frequentes,
podendo-se optar por outras escolas locais, dependendo do idioma. Outra questão, já mencionada, é o custo da escola. Atualmente, não existe auxílio-educação para filhos de diplomatas ou de outros Servidores do Serviço Exterior brasileiro, e o dinheiro da escola deve sair do próprio bolso do servidor.
CÉSAR AUGUSTO VERMIGLIO BONAMIGO - Diplomata. Engenheiro Eletrônico formado pela UNICAMP. Pós- graduado em Administração de Empresas pela FGV-SP. Programa de Formação e Aperfeiçoamento - I (PROFA -
I) do Instituto Rio Branco, 2000/2002. No Ministério das Relações Exteriores, atuou no DIC - Divisão de Informação Comercial (DIC), 2002; no DNI - Departamento de Negociações Internacionais, 2003, e na DUEX - Divisão de União Europeia e Negociações Extrarregionais. Atualmente, serve na Missão junto à ONU (DELBRASONU), em NYC.
2 Conforme comunicado do MRE de 2010, é permitida a autorização para que diplomatas brasileiros solicitem passaporte diplomático ou de serviço e visto de permanência a companheiros do mesmo sexo. Outra resolução, de 2006, já permitia a inclusão de companheiros do mesmo sexo em planos de assistência médica.
Para tornar-se diplomata, é necessário ser aprovado no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD), que ocorre todos os anos, no primeiro semestre (normalmente). O número de vagas do CACD, em condições normais, depende da vacância de cargos. Acho que a quantidade normal deve girar entre 25 e 35, mais ou menos. Desde meados dos anos 2000, como consequência da aprovação de uma lei federal, o Ministério das Relações Exteriores (MRE/Itamaraty3) ampliou seus quadros da carreira de diplomata, e, de 2006 a 2010, foram oferecidas mais de cem vagas anuais. Com o fim dessa provisão de cargos, o número de vagas voltou ao normal em 2011, ano em que foram oferecidas apenas 26 vagas (duas delas reservadas a portadores de deficiência física4). Para os próximos concursos, há perspectivas de aprovação de um projeto de lei que possibilitará uma oferta anual prevista de 60 vagas para o CACD, além de ampliar, também, as vagas para Oficial de Chancelaria (PL 7579/2010). Oficial de Chancelaria, aproveitando que citei, é outro cargo (também de nível superior) do MRE, mas não integra o quadro diplomático. A remuneração do Oficial de Chancelaria, no Brasil, é inferior à de Terceiro-Secretário, mas os salários podem ser razoáveis quando no exterior. Já vi muitos casos de pessoas que passam no concurso de Oficial de Chancelaria e ficam trabalhando no MRE, até que consigam passar no CACD, quando (aí sim) tornam-se diplomatas.
Para fazer parte do corpo diplomático brasileiro, é necessário ser brasileiro nato, ter diploma válido de curso superior (caso a graduação tenha sido realizada em instituição estrangeira, cabe ao candidato providenciar a devida revalidação do diploma junto ao MEC) e ser aprovado no CACD (há, também, outros requisitos previstos no edital do concurso, como estar no gozo dos direitos políticos, estar em dia com as obrigações eleitorais, ter idade mínima de dezoito anos, apresentar aptidão física e mental para o exercício do cargo e, para os homens, estar em dia com as obrigações do Serviço Militar). Os aprovados entram para a carreira no cargo de Terceiro-Secretário (vide hierarquia na próxima seç~o, “Carreira e Sal|rios”). Os aprovados no CACD, entretanto, não iniciam a carreira trabalhando: há, inicialmente, o chamado Curso de Formação, que se passa no Instituto Rio Branco (IRBr). Por três semestres, os aprovados no CACD estudarão no IRBr, já recebendo o salário de Terceiro-Secretário (para remunerações, ver a próxima seç~o, “Hierarquia e Sal|rios).
O trabalho no Ministério começa apenas após um ou dois semestres do Curso de Formação no IRBr (isso pode variar de uma turma para outra), e a designação dos locais de trabalho (veja as subdivisões do MRE na página seguinte) é feita, via de regra, com base nas preferências individuais e na ordem de classificação dos alunos no Curso de Formação.
3 O nome “Itamaraty” vem do nome do antigo propriet|rio da sede do Ministério no Rio de Janeiro, o Bar~o Itamaraty. Por metonímia, o nome pegou, e o Palácio do Itamaraty constitui, atualmente, uma dependência do MRE naquela cidade, abrigando um arquivo, uma mapoteca e a sede do Museu Histórico e Diplomático. Em Brasília, o Palácio Itamaraty, projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1970, é a atual sede do MRE. Frequentemente, “Itamaraty” é usado como sinônimo de Ministério das Relações Exteriores.
4 Todos os anos, há reserva de vagas para deficientes físicos. Se não houver número suficiente de portadores de deficiência que atendam às notas mínimas para aprovação na segunda e na terceira fases do concurso, que têm caráter eliminatório, a(s) vaga(s) restante(s) é(são) destinada(s) aos candidatos da concorrência geral.
O IRBr foi criado em 1945, em comemoração ao centenário de nascimento do Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira. Como descrito na página do Instituto na internet, seus principais objetivos são:
harmonizar os conhecimentos adquiridos nos cursos universitários com a formação para a carreira diplomática (já que qualquer curso superior é válido para prestar o CACD);
desenvolver a compreensão dos elementos básicos da formulação e execução da política externa brasileira;
iniciar os alunos nas práticas e técnicas da carreira.
No Curso de Formação (cujo nome oficial é PROFA-I, Programa de Formação e Aperfeiçoamento - obs.: n~o sei o motivo do “I”, n~o existe “PROFA-II”), os diplomatas têm aulas obrigatórias de: Direito Internacional Público, Linguagem Diplomática, Teoria das Relações Internacionais, Economia, Política Externa Brasileira, História das Relações Internacionais, Leituras Brasileiras, Inglês, Francês e Espanhol. Há, ainda, diversas disciplinas optativas à escolha de cada um (como Chinês, Russo, Árabe, Tradução, Organizações Internacionais, OMC e Contenciosos, Políticas Públicas, Direito da Integração, Negociações Comerciais etc.). As aulas de disciplinas conceituais duram dois semestres. No terceiro semestre de Curso de Formação, só há aulas de disciplinas profissionalizantes. O trabalho no MRE começa, normalmente, no segundo ou no terceiro semestre do Curso de Formação (isso pode variar de uma turma para outra). É necessário rendimento mínimo de 60% no PROFA-I para aprovação (mas é praticamente impossível alguém conseguir tirar menos que isso). Após o término do PROFA-I, começa a vida de trabalho propriamente dito no MRE. Já ouvi um mito de pedida de dispensa do PROFA I para quem já é portador de título de mestre ou de doutor, mas, na prática, acho que isso não acontece mais.
Entre 2002 e 2010, foi possível fazer, paralelamente ao Curso de Formação, o mestrado em diplomacia (na prática, significava apenas uma matéria a mais). Em 2011, o mestrado em diplomacia no IRBr acabou.
Uma das atividades comuns dos estudantes do IRBr é a publicação da Juca, a revista anual dos alunos do Curso de Formação do Instituto. Segundo informações do site do IRBr, “[o] termo ‘Diplomacia e Humanidades’ define os temas de que trata a revista: diplomacia, ciências humanas, artes e cultura. A JUCA visa a mostrar a produção acadêmica, artística e intelectual dos alunos da academia diplomática brasileira, bem como a recuperar a memória da política externa e difundi-la nos meios diplomático e acadêmico”. Confira a página da Juca na internet, no endereço: http://juca.irbr.itamaraty.gov.bpt-bMain.xml.
Para saber mais sobre a vida de diplomata no Brasil e no exterior, sugiro a conhecida “FAQ do Godinho” (“FAQ do Candidato a Diplomata”, de Renato Domith Godinho), disponível para download no link: http://relunb.files.wordpress.com/2011/08/faq-do-godinho.docx. Esse arquivo foi escrito há alguns anos, então algumas coisas estão desatualizadas (com relação às modificações do concurso, especialmente). De todo modo, a parte sobre o trabalho do diplomata continua bem informativa e atual.
MEUS ESTUDOS PARA O CACD – http://relunb.wordpress.com
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Jon Snow (Parte 4)

O primeiro capítulo de Jon é o quarto de A Dança dos Dragões e ele se inicia com Jon tendo sonhos de lobo. Dentro de Fantasma Jon adquire uma sensibilidade para saber quantos irmãos estão vivos.
Esta é uma habilidade que pode ser muito útil caso Jon venha a habitar Fantasma após ter sido morto em seu último capítulo, mas isso é assunto para o sexto livro, Os Ventos do Inverno.
No quinto livro, o que importa notar é que os capítulos de Jon começam com ele dentro de Fantasma, e terminam com ele pronunciando o nome do lobo gigante. Parece que Martin se utiliza da tendência dos leitores a desejarem histórias com fechamento de ciclo para deixar implícito o futuro de Jon.
Depois do sonho, porém, vemos um personagem diferente daquele que deixamos em A Tormenta de Espadas. Jon está mais orgulhoso, não aceita provocações de Sor Godry Farring ou de Stannis Baratheon. Os diálogos internos marcam mais presença do que suas palavras para descobrirmos seu estado espírito. Muito diferente daquele garoto que Janos Slynt e Alliser Thorne conseguiram arrancar uma confissão pesarosa de que quebrara seus votos com Ygritte.
Em verdade, a forma como Jon se impõe sobre Stannis durante todo o livro é admirável. Talvez por isso Martin tenha escolhido que víssemos Lorde Snow tratando com o rei antes do que viria a seguir com Goiva, Samwell e Janos. A mesma irredutibilidade ocorre com Melisandre, mas ela também é outra pessoa de quem o leitor foi treinado a desconfiar, por isso o novo Lorde Comandante parece prudente em não toma-la como conselheira.
Olhando em retrospectiva, porém, fica claro que Jon Snow tinha medo do que me Melisandre pudesse fazer. Afinal, suas primeiras atitudes como Lorde Comandante são todas voltadas a impedi-la de ferir os dois Aemons (o Targaryen e o filho de Mance).
Isso nos leva aos primeiros sinais de que há algo errado com Jon Snow. A princípio parece que o cargo está lhe subindo à cabeça, mas por fim acabamos por entender que, baseado no conselho que meistre Aemon deu a Aegon V (e ao próprio Jon), o recém-empossado Lorde Comandante acredita que seus sentimentos devem passar pelo filtro da maturidade e que o jeito maduro de resolver as coisas é agir em desacordo com sua idade.
Curiosamente, as lições da história deveriam alertar Jon de que Aegon V morreu tragicamente, governando em isolamento, cercado de inimigos. Talvez assim teria hesitado em ouvir Aemon neste quesito.
Pois bem. Após Jon Snow ter se mostrado competente no jogo de palavras com Stannis e Melisandre ele tenta tomar as rédeas do assunto do filho de Mance. Sabendo-se incapaz de exercer pressão real sobre a corte de Baratheon, Jon inteligentemente força o elo mais fraco da corrente: Goiva.
Em uma cena de monstruosa tirania, digna de Randyll Tarly, Jon usa a falta de força de vontade de Goiva contra ela. Usa sua submissão para força-la a abandonar o filho. Chega ao ponto de obriga-la a por uma mão sobre um chama para mostrar como a criança de Mance morreria. E completa com uma ameaça, para incentivá-la a não lhe desobedecer:
Uma coisa eu lhe prometo: no dia em que queimarem o filho de Dalla, o seu morre também.
(ADWD, Jon II)
É claro que o leitor conhece as intenções de Jon e, naturalmente, duvida que ele levaria a cabo este tipo de empreitada. Mas Goiva não sabia, como Jon está ciente. A forma exagerada como executa a manipulação lembra a ameaça que Jaime faz a Edmure, que nunca saberia que Jaime dificilmente cumpriria a promessa de atirar a criança em uma catapulta (isso porque, com a ameaça, Jaime estava tentando manter a promessa, feita à Catelyn, de que não levantaria armas contra os Tully).
Algo de semelhante acontece na conversa com Samwell. Quando dá a ordem de partir para Vilavelha, Jon esperava que o jovem intendente cooperasse alegremente. Mas Tarly fica nervoso, amedronta-se e fica na defensiva sobre suas capacidades. Jon, então, toma a decisão de matar “o menino em você e o menino nele” para se sobrepor até mesmo ao medo que Samwell tem de desobedecer o próprio pai.
Desobedecer Jon se torna mais temível do que desobedecer Randyll Tarly para Sam. Isso diz algo.
– Não vai tentar. Vai obedecer. [...]
Sam pareceu ceder. – Como meu senhor ordena. [...]
Sam fugiu dele como Goiva havia feito.
(ADWD, Jon II)
Com Janos Slynt, porém, a conversa foi totalmente diferente. Em nenhuma vez Jon pensou “mate o menino e deixe o homem nascer”. Na verdade, Jon já pensava em decapitar Janos Slynt desde o primeiro momento em que os vimos juntos em A Dança dos Dragões:
Jon deslizou o oleado pela espada bastarda, observando as luzes da manhã brincando em suas ondulações, pensando em quão fácil a lâmina atravessaria pele, gordura e tendões para separar a cabeça feia de Slynt de seu corpo. Todos os crimes de um homem eram esquecidos quando ele vestia o negro, assim como todas as alianças, ainda assim era difícil pensar em Janos Slynt como um irmão. Há sangue entre nós. Esse homem ajudou a assassinar meu pai e fez o melhor que pôde para me matar também.
(ADWD, Jon II)
Jon tem boas razões para ter um tratamento rígido com relação a Janos. Somente por intervenção de Cotter Pyke foi que o ex-Capa Douradas não conseguiu enforcar Snow. E mesmo depois disso, ainda assim o enviou para matar Mance Rayder durante uma negociação, uma missão sabidamente suicida. Então, agora eleito Lorde Comandante, era necessário que Jon lidasse rapidamente com Janos Slynt.
Caso o garoto fosse um jogador do Jogo do Tronos como Tyrion, teria angariado o apoio de alguém tão influente quanto Janos e Alliser para poder executar Janos por ter o enviado a morte de propósito. Porém, eu acredito que Jon tenha se deixado levar pela formalidade de Janos de querer justificar seus atos. Primeiro, quando precisou que Jon confessasse ter traído seus votos, e depois ao disfarçar a nova sentença como uma oportunidade de redenção:
– Mesmo assim – falou Slynt –, não quero que se diga que Janos Slynt enforcou um homem injustamente. Não quero. Decidi dar-lhe uma última chance de demonstrar que é tão leal como diz ser, Lorde Snow.
(ASOS, Jon X)
Portanto, inconscientemente, Jon Snow sente a necessidade de arranhar um subterfúgio para acabar com Slynt. Talvez enviar Janos para Guardagris tenha sido a forma encontrada por Jon para que esse subterfúgio viesse a tona.
Afinal, por que outro motivo Jon teria pensado o seguinte quando Janos pergunta “Você acha que não vejo o que está fazendo?”:
Estou lhe dando uma chance, senhor. É mais do que deu para meu pai.
(ASOS, Jon X)
A resposta violenta de Janos à ordem já era esperada. O ex-Capa Dourada o xingou e fez ameaças veladas, se negou a obedecer e ainda fez uma demonstração de violência ao sair.
– Não. – Lorde Janos levantou-se abruptamente, derrubando a cadeira para trás. – Não vou partir humildemente para congelar e morrer. Nenhum bastardo de um traidor vai dar ordens para Janos Slynt! Não estou sem amigos, fique sabendo. Aqui e em Porto Real também. Eu era Senhor de Harrenhal! Dê sua ruína para um dos tolos cegos que atiram uma pedra por você, porque eu não vou para lá. Você me ouviu, rapaz? Não vou para lá!
– Você vai.
Slynt não se dignou a responder, mas chutou a cadeira para o lado quando saiu.
(ASOS, Jon X)
Jon entretanto sabia que tudo aquilo era encenação e ameaças vazias, tanto que assim pensou ao assistir a cena:
Ele ainda me vê como um garoto, Jon pensou, um garoto inexperiente que pode ser intimidado por palavras raivosas.
(ASOS, Jon X)
No dia seguinte, Janos deu resposta similar, em público, mas não repetiu as ameças de que tinha amigos em Porto Real. Na frente dos homens da Patrulha apenas xingou novamente Jon e abertamente disse para ele enfiar a ordem no rabo. No final de A Tormenta de Espadas, mesmo que Jon tenha feito comentários sarcásticos e até tenha se revoltado quando foi sentenciado à forca, este não foi tratamento que Snow ofereceu a Janos quando este estava provisoriamente no comando.
Matar Slynt, entretanto, não era a única alternativa, como Jon bem ponderou. Como Lorde Comandante poderia prendê-lo ou força-lo a ir para Guardagris como subalterno de outro oficial. Ainda que Jon considere que seria apenas uma questão de tempo até que Slynt revidasse, estes pensamentos revelam que Snow sabia que a atitude de Slynt não era necessariamente punida com a morte. Matar Janos Slynt foi uma atitude política.
Quando Goiva se negou a obedecer Jon, ele a ameaçou. Não houve ameaças com Slynt. Na verdade, quando Jon estava coagindo Goiva e Sam a obedecerem-no, ele lembrava da lição de meistre Aemon, “mate o garoto”, indicando que deveria fazer o que achava certo, mesmo que fossem amargas.
enquanto enfrentava Slynt, Jon em nenhum momento pensou na lição de Aemon. Nem no primeiro encontro privado, nem durante a confrontação pública. Jon queria matar Slynt desde o começo. Inclusive, Martin magistralmente inseriu uma breve parágrafo entre o insulto de Janos e a ordem de Jon:
Alliser Thorne deu um tênue sorriso, os olhos negros fixos em Jon. Em outra mesa, Godry, o Matador de Gigantes, começou a rir.
(ASOS, Jon X)
Seria coincidência que o escritor tenha colocado dois homens que zombaram de Jon no passado para rir quando ele era insultado em público por um subalterno? Acho que não.
Em seus pensamentos, não constatamos que Jon estivesse ofendido pelas risadas. Porém, eu acredito que aquilo afetou a percepção de todos que estavam no recinto. As pessoas ao redor, que não estavam presentes na primeira vez que Janos insultava Jon, devem ter concluído que Jon estava estabelecendo que puniria o desafio e a zombaria com a morte.
Na cabeça de Jon, a morte de Janos era uma mensagem para Alliser Thorne e quaisquer conspiradores que estivessem ali. Um lembrete de que ele não pegaria leve com aqueles que lhe ameaçassem. Não era uma mensagem para qualquer homem que pensasse em desobedê-lo, haja vista que Jon apenas descartou as outras opções porque achava que elas beneficiavam a conspiração de Janos e Alliser.
Entretanto, as pessoas ali presentes não estavam dentro da cabeça de Jon Snow. Tampouco estavam presentes quando Goiva e Sam contestaram as ordens de Jon. O que eles viram foi que, ao primeiro sinal de desobediência, Jon decretou a morte de um subalterno. Alguns até podem ter visto além e pensado que, primeira oportunidade que lhe foi dada, Jon estava eliminando o segundo lugar na eleição ao cargo de Lorde Comandante.
Mas a punição, por mais dura e desproporcional que fosse, não era ilegal. Por isso o próprio Alliser Thorne abriu caminho para Emmet e Edd imobilizarem Janos. Ainda assim, é evidente que Jon alimentava expectativas os apoiadores de Janos se rebelassem. Na verdade, ele queria um subterfúgio para matar Alliser Thorne também. Pode ser que, inconscientemente, tenha escolhido matar Janos justamente para também acabar com Thorne:
Sor Alliser Thorne alcançou o punho da espada. Vamos lá, Jon pensou. Garralonga estava pendurada em suas costas. Mostre seu aço. Me dê motivo para fazer o mesmo.
(ASOS, Jon X)
Mas o fato é que Jon temia os eventuais eleitores de Janos Slynt que ali poderiam estar presentes. Martin fez constar um parágrafo inteiro em que Jon pensava o quanto o mundo parecia "equilibrado no fio da espada". No entanto, neste mesmo parágrafo, Martin faz uma menção breve aos homens de Stannis no recinto.
Este é outro elemento que pode ter funcionado como um freio para um eventual revolta. Ninguém em sã consciência acreditaria que Stannis seria tolerante com um motim. Especialmente quando Jon parecia ser aliado do Rei (o que deve ter ficado mais evidente quando Stannis assentiu para Jon depois a execução, parecendo aprová-la).
A caminho da execução Janos continua a esbravejar. Pela primeira vez neste dia grita que tem amigos em Porto Real, citou até o nome de Tywin e diz que não está assustado. Entretanto, quando Jon volta atrás (na verdade, apenas muda a forma de execução), uma coisa interessante ocorre.
Ficamos sabendo que Bowen Marsh parece ser um seguidor da Fé dos Sete ("Oh, os Sete nos salvaram – ele ouviu Bowen Marsh gritar"), muito embora provenha de uma Casa Nortenha. Isso é que se mostra importante ressaltar, pois que Septão Cellador foi uma dos acusadores de Jon quando Slynt havia chegado a Castelo Negro. Assim, fica menos estranho que Marsh (do Norte), Yarwick (das Terras Ocidentais) e um septão tenham mais tarde se aliado contra Jon. Essa devoção aos Sete diminui as diferenças culturais entre eles e torna a aliança mais crível. Sem falar que isso ressignifica as acusações de Janos sobre Jon ter a “marca da besta” com Fantasma (elo de warg), uma acusação que deve parecer mais abominável à luz dos Sete.
O insulto final aos conspiradores veio logo depois da cabeça de Janos ter rolado, quando, como dizem, o cadáver não havia nem esfriado. A última fala do capítulo vem de Owen Idiota, que estava sob o cadáver de Slynt pedindo suas botas a Jon, como um saqueador pedindo licença a um comandante. Esta obscenidade que pode ter soado como o escárnio final para os opositores de Jon.
Vai ter parte 5.
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Economistas do meu /r/Brasil varonil, me ajudem a entender o quanto eu estou errado sobre os 20% do Trump.

Trump diz que a muralha vai ser paga através de uma taxa de 20% sobre produtos mexicanos - não há nada confirmado ainda em relação a isso, apenas boatos (só jogar no google). O objetivo desse post não é alardear isso como verdade e sim imaginar o resultado desses "20%". Eu imaginei alguns cenários e quero entender o quanto minhas conclusões podem estar erradas - pq eu entendo bem pouco de economia. A princípio, minha conclusão é que os EUA pagarão pela muralha, independentemente do que digam. Imaginei os seguintes cenários possíveis:
Obs.: De todo modo, mesmo que as empresas mexicanas se dêem mal e a economia mexicana entre em grande crise, o que isso significa é justamente que nesse cenário o México não teria como pagar pelo muro, por ter entrado em crise graças ao lance dos 20%. Quer dizer, parece um jogo perdido para os EUA: Ou os EUA pagam pelo muro E o México se ferra economicamente, ou...os EUA pagam pelo muro anyway. Qualquer cenário em que o preço da mercadoria mexicana suba - ou que empresas mexicanas sofram pra abaixar o custo de fabricação pra compensar a subida no preço - tem como resultado os EUA pagando pelo muro. Trump parece querer forçar um acordo com o México, aonde se o México recusar, terá que em seguida voltar com o rabo entre as pernas para a mesa de negociação, face a um acordo ainda pior - do tipo "só não vamos colocar a tarifa de 20% se o México aceitar pagar pelo muro de fato"...mas o problema disso é que absolutamente nenhum mexicano quer isso e não vejo como isso seria possível então...Se o México se recusar, todo mundo se fode e nenhum muro é construído se os EUA não pagar.
Algumas considerações a mais: Isso pra mim parece um blefe Trump não quer mesmo construir um muro, só quer ferrar o México (sei lá pq). Trump sabe que o presidente mexicano (Nieto) tem apenas 12% de aprovação, e as próximas eleições são ano que vem. Mesmo que Nieto decida que o méxico vai pagar pelo muro, pra tentar salvar a economia mexicana do desastre, ele sabe que isso seria suicídio político. O que dá pra imaginar é que ano que vem o México irá eleger algum nacionalista (a la Trump) que prometa encarar Trump de frente. O que vai apenas danificar ainda mais o México (eu acho?), o que significa que, mais uma vez, o México não pagaria pelo muro e sim os EUA.
TL;DR: Essa tarifa de 20% iria fazer todo mundo se dar mal, especialmente os EUA. E os EUA pagarão pelo muro de qualquer modo.
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Diálogo entre as Coréias é mérito de Donald Trump? A história mostra que não

Por Filipe Figueiredo
Source:
https://xadrezverbal.com/2018/05/01/dialogo-entre-as-coreias-e-merito-de-trump/
http://www.gazetadopovo.com.bideias/dialogo-entre-as-coreias-e-merito-de-trump-a-historia-mostra-que-nao-cq6mfqmq35smke6zb2g31u791
O encontro entre Kim Jong-un, ditador da Coreia do Norte, e o presidente da Coreia do Sul Moon Jae-in, na linha que divide os dois países já é histórico. Pela primeira vez, um líder do Norte pisou no território vizinho. Os poucos diálogos de alto nível que ocorreram antes não tiveram uma fração da exposição da última cúpula. Apertos de mão, sorrisos, diplomacia gastronômica, saídas de protocolo e até gracejos fizeram parte do encontro, tudo muito bem fotografado e televisionado.
A intenção é criar simpatia e confiança nas conversas, mostrar ao mundo que os dois líderes estão dispostos e comprometidos ao diálogo, um chamariz para o apoio e participação de outros países. O entusiasmo com o evento, entretanto, pode precipitar análises e conclusões, gerando conjecturas equivocadas.
Postura comum em circunstâncias desse tipo é querer atribuir o quanto antes méritos ou deméritos, normalmente para ganho de capital político. No presente caso, quem seria o responsável pelo encontro inédito? A quem cabe os elogios?
Em uma das possíveis respostas, muitas pessoas correram em louvar o papel do presidente dos EUA, Donald Trump, na crise, como o principal responsável pela cúpula. Independentemente dos motivos e das intenções de tal conclusão, ela é imediatista e equivocada. O que também não quer dizer que Trump não tenha qualquer participação, mas que ela está inserida em conjuntura muito mais ampla, com outros interesses e atores mais decisivos.
A Coreia do Sul
Ambos os governos coreanos consideram-se, desde 1948, como o único e legítimo governo de toda a península da Coreia. Não existe um reconhecimento diplomático e jurídico mútuo, assim como a Guerra da Coreia foi encerrada em 1953 com um armistício, não um tratado de paz duradouro, que consagrou a fronteira estabelecida pelas zonas de ocupação ao final da Segunda Guerra Mundial.
As duas repúblicas coreanas, além de se considerarem a única, possuem órgãos de alto nível para a reunificação, o Ministério de Reunificação ao Sul e o Comitê para a Reunificação Pacífica da Pátria ao Norte. Até a década de 1980, ambas as repúblicas estavam em patamares semelhantes na economia e em poderio militar. É quando o caminho dos dois países vai, simultaneamente, se aproximar e também se distanciar.
As décadas de permanente hostilidade e tensão bélica deram lugar aos primeiros atos de cooperação pontual. Em 1984, a Coreia do Norte enviou ajuda humanitária ao Sul. No ano seguinte, ocorre a primeira reunião de famílias que foram separadas pela guerra. Em 1991, ambos os países foram aceitos como membros da ONU e foi inaugurada a Bandeira da Reunificação, que exibe o contorno de toda a península coreana, com a participação unificada no Mundial de Tênis de Mesa. Em 1998, a Coreia do Sul enviou ajuda humanitária ao Norte. Em 2002 foi inaugurado o complexo industrial de Kaesong, na Coreia do Norte, que une mão-de-obra Norte-coreana e investimentos de empresas Sul-coreanas.
O distanciamento também ocorre na década de 1980, com o fim da ditadura militar Sul-coreana da Guerra Fria. Eleições são realizadas em 1981 para governos de transição e é estabelecida uma nova constituição em 1988. A economia Sul-coreana, em ascensão na década de 1970 e que começava a enfrentar uma crise, é beneficiada pela reforma política, que possibilita a abertura para investimentos estrangeiros. Entre 1982 e 1987, a Coreia do Sul cresce em torno de 9% ao ano, com um crescimento de 12% apenas no ano de 1988. Hoje, a economia Sul-coreana é uma das quinze maiores do mundo.
Esses trinta anos de crescimento e democracia fazem com que, hoje, a Coreia do Sul esteja muito à frente de seus vizinhos ao Norte na maioria dos critérios. Poder econômico e qualidade de vida são os principais, mas também dois desdobramentos desses. A indústria bélica e as forças armadas Sul-coreanas contam com orçamentos generosos, difíceis de serem enfrentados de maneira convencional.
Além disso, a Coreia do Sul está presente mundialmente. Enquanto a Coreia do Norte é praticamente um pária internacional, existe ampla simpatia pelos sul-coreanos, derivada do contato com a cultura e o consumo de marcas coreanas de carros, eletrônicos, jogos, música e demais aspectos da cultura pop.
O histórico de hostilidades, a herança dos governos militares, o distanciamento entre as Coreias e as regras democráticas reSultam no fato de que a postura do governo sul-coreano em relação ao Norte sofre mudanças.
Na verdade, a posição em relação ao conflito coreano é um dos mais importantes aspectos eleitorais no Sul. De um lado, os adeptos da aproximação e de uma reunificação pacífica e gradual, destacando a irmandade entre as duas populações e as possibilidades de investimentos para a economia do Sul. Do outro, os que alegam que hoje existe uma distância muito grande entre os dois países, que uma reunificação deve ocorrer pelo protagonismo do Sul e que o Sul deve se manter em constante estado de prontidão.
A segunda postura é o caso do partido Saenuri, atualmente Partido da Liberdade, partido da ex-presidente Park Geun-hye, filha do ex-ditador Park Chung-hee e de postura cética em relação ao Norte. Ela governou a Coreia do Sul entre 2013 e 2017, quando sofreu impeachment no surreal caso de corrupção das Fadas Celestiais. Seu antecessor foi Lee Myung-bak, que governou entre 2008 e 2013 e também é réu em processo por corrupção, talvez o presidente sul-coreano em período democrático mais linha-dura perante o Norte. Hoje, cerca de um terço do parlamento sul-coreano é ocupado por políticos no mínimo céticos com uma aproximação e diálogo com o Norte.
O partido com a maioria dos assentos, 121 de 300, é do Partido Democrático, do atual presidente Moon Jae-in. Moon nasceu dois anos após seus pais serem evacuados do Norte durante a Guerra da Coreia, no chamado Milagre de Natal de 1950. Além de ser um filho de refugiados do Norte, Jae-in é apenas o segundo católico eleito para a presidência do país. Após formar-se em Direito, militou nos anos 1980 e nos anos 1990 em casos de violações de direitos humanos ocorridos durante a ditadura do país. Após trabalhar na campanha presidencial de Roh Moo-hyun, Moon foi eleito para a Assembleia Nacional em 2012. Tanto em seu mandato como deputado como em sua campanha presidencial, Moon Jae-in advogou enfaticamente a retomada do diálogo com a Coreia do Norte.
Mais que isso, ele afirma a importância das relações com os EUA, um “amigo e aliado”, tendo solicitado o posicionamento do sistema antimísseis em seu país, mas defende que assuntos da península da Coreia devem ser protagonizados pelos coreanos. O tom conciliador, entretanto, não se baseia em um diálogo feito apenas de concessões; Moon Jae-in repetidas vezes destacou a necessidade do fim do arsenal nuclear do Norte.
Foi nessas bases em que ele foi eleito presidente em 2017, com 41% dos votos, contra 24% do segundo candidato. Após quase uma década de governos linha dura ou céticos com o Norte, a Coreia do Sul elegeu alguém cuja principal proposta era a do diálogo com a vizinha. Deve-se salientar que foram as duas repúblicas coreanas que sentaram na mesma mesa para dialogar, ou seja, são esses dois os atores principais, cujos interesses e contextos não podem ser colocados em segundo plano. No caso do Sul, sem os esforços de Moon Jae-in e de seu gabinete, agindo com respaldo doméstico, a cúpula coreana não poderia ter ocorrido.
Os EUA e as sanções
Desde a Guerra da Coreia, as relações entre EUA e a Coreia do Norte são extra-oficiais, já que Washington considera Seul a representante oficial coreana. Esse histórico é marcado por momentos de hostilidades e breves pontuações de diálogo. A principal ferramenta dessa relação é a sanção econômica e política. A Coreia do Norte está sob sanções dos EUA desde o ano de 1950, quando o país foi inserido no Trading with the enemy Act (Negociando com o inimigo) de 1917, um marco regulatório para comércio entre empresas e cidadãos dos EUA e países hostis, assim como a presença de empresas desses países em território de soberania dos EUA; o país foi retirado do ato no século XXI, substituído por outras sanções.
Algo que precisa ser destacado é que o combate à proliferação nuclear e a política de sanções contra a Coreia do Norte, nos EUA, é bipartidário. É uma política de Estado, que antecede e sucede qualquer presidente. O processo de sanções dos EUA intensifica-se após a recusa Norte-coreana de aceitar inspetores em suas instalações nucleares e a notificação de que se retiraria do Tratado de Não-proliferação. Sanções afetando diretamente a Coreia do Norte são aprovadas em 1992, 1996, 1997, 1998, 2000, 2001, 2002 e 2006; período que envolve três diferentes presidentes dos EUA, George Bush, Bill Clinton e George W. Bush, de ambos os principais partidos.
Esse processo é longo e detalhado. Até 2006, é marcado por idas e vindas, pressões amenizadas com concessões. Por exemplo, em 1999, a Coreia do Norte declara que congelará por prazo indeterminado seus testes com mísseis, o que é acompanhado de concessões pelo governo Clinton; tal congelamento chega ao fim em 2005.
Em outubro de 2006, a Coreia do Norte realiza seu primeiro teste de uma arma nuclear.
O governo dos EUA passa então a tratar o tema das sanções em duas frentes.
Além das impostas pelo país, leva o tema ao Conselho de Segurança da ONU (CSNU). Unanimemente são aprovadas sanções contra a Coreia do Norte na Resolução 1718 e é criado um órgão específico para elas. Esse é outro fator de grande importância. As sanções pelo Conselho de Segurança contaram com aprovação chinesa, a potência mais próxima da Coreia do Norte. Além disso, as sanções do CSNU são vinculantes a todos os países-membro, não dependendo apenas do esforço dos EUA em verificar se elas são cumpridas.
De 2006 ao início de 2018, são aprovadas nove resoluções no Conselho de Segurança da ONU no tema de sanções contra a Coreia do Norte. Uma das mais importantes é de novembro de 2016, que restringe exportações Norte-coreanas de carvão mineral e outros minerais. A importância se dá pelo fato de a China não apenas aceitar tal sanção, mas ser um dos primeiros países a anunciar seu cumprimento. Em fevereiro de 2017, a China vai além e declara que não importaria mais carvão da Coreia do Norte. Mais de 90% do comércio norte-coreano é com a China, mostrando que o envolvimento chinês na política de sanções deixaria a Coreia do Norte extremamente vulnerável - e em sinal de alerta.
Além das resoluções no CSNU, o governo dos EUA promoveu sanções próprias contra a Coreia do Norte durante todo esse período, que corresponde a três presidentes, de ambos os partidos: George W. Bush, Barack Obama e Donald Trump. Tanto Obama quanto Trump também usaram ordens executivas para temas norte-coreanos.
Uma política de sanções não gera reSultados instantâneos, da noite para o dia. A Coreia do Norte é enfraquecida e isolada progressivamente desde a década de 1990, com cada vez mais intensidade. Nenhum governo desde Bill Clinton amenizou o que foi feito antes, ao contrário. Possivelmente chegou-se ao ponto da Coreia do Norte estar com um prazo em que ficará sem combustíveis. A necessidade Norte-coreana de variar e ampliar sua economia não é decorrente de uma política de um ano, mas do desgaste de décadas, o que não quer dizer que Trump não tenha méritos.
Um dos méritos foi o de não seguir alguns de seus conselheiros de deixar de lado o multilateralismo e manter a pressão e as sanções via CSNU. Durante o governo Trump foram aprovadas três das nove resoluções; uma foi ainda no governo George W. Bush e cinco no governo Obama.
Isso, além dos benefícios já citados, dá autoridade para os EUA punir infratores das sanções e também contribui para manter a China envolvida nas sanções. E entra o principal mérito de Trump nesse processo, em sancionar não apenas a Coreia do Norte, suas empresas, seus nacionais e atividades diretas, mas também os que indiretamente realizam negócios com a Coreia do Norte. Nessa seara, Trump e seu governo criaram uma lista de navios, aviões e empresa cujas atividades incluem destinos norte-coreanos. Isso incluiu empresas chinesas, como Beijing Chengxing Trading Co e Dandong Jinxiang Trade, e forçou o governo chinês a aumentar a fiscalização de atividades com a Coreia do Norte.
É nesse sentido que a Ministra de Relações Exteriores da Coreia do Sul, Kang Kyung-wha, creditou Trump em entrevista à Christiane Amanpour da CNN. Isso pode ser visto na íntegra da entrevista, de cerca de onze minutos, em contraste à versão editada para uso em redes sociais.
Na conversa, Kang Kyung-wha deu créditos a Trump por manter-se engajado no assunto junto ao seu presidente e manter pressão via as sanções. Na mesma entrevista, Kang Kyung-wha, além de obviamente destacar o papel de seu governo e de seu presidente, declarou ver “intenções legítimas” de dialogar em Kim Jong-un.
É necessário ir além de declarações de manchetes e compreender a conjuntura ampla. A diplomata Sul-coreana creditou seu principal aliado como qualquer parceiro faria, mas destacou as sanções, não dando atenção no tema do tom belicoso, que foi trazido para a conversa pela jornalista.
Não foram as declarações belicosas ou ameaças de Trump que contribuíram para o processo, mas a manutenção e intensificação inteligente de uma política que já existia.
A cronologia e os números, inclusive, dizem o contrário, que a diplomacia de “testosterona” de Trump foi meramente retrucada. Em pouco mais de um ano de governo Trump, a Coreia do Norte realizou dezesseis testes de mísseis balísticos; durante todo o governo Obama, foram doze testes.
Seu pronunciamento de “fogo e fúria” contra a Coreia do Norte foi sucedido pelo primeiro teste balístico que sobrevoou o Japão em uma trajetória de lançamento, gerando alarmes. Trump afirmou, perante a Assembleia Geral da ONU, que os EUA poderiam se ver forçados a destruir a Coreia do Norte. Dois meses depois a Coreia do Norte testou o míssil Hwasong-15, que analistas afirmam possuir capacidade de atingir todo o território continental dos EUA; mesmo que se duvide dessa capacidade, está claro que são possíveis ataques de mísseis norte-coreanos ao menos contra alvos inSulares, como Guam e Havaí, e a costa oeste, onde estão cidades como Los Angeles e São Francisco.
O governo Trump, assim como os antecessores, trabalha com as opções militares na mesa, embora improváveis. A demonstração de força é importante, inclusive para pressionar durante as negociações e conversas diplomáticas. É com essa lógica que os EUA mantém seu exercício anual militar com a Coreia do Sul desde a década de 1960, além de manutenção permanente de tropas no Sul.
Bush colocava a Coreia do Norte como parte do “Eixo do Mal”. Obama afirmou que os EUA “poderiam destruir a Coreia do Norte” devido ao comportamento “errático” de Kim Jong-un. Entretanto, uma opção militar contra a Coreia do Norte é algo extremamente arriscado. Além do óbvio risco de escalada, com o envolvimento dos vizinhos no conflito, e da possível retaliação Norte-coreana contra os EUA, seria virtualmente impossível evitar que a Coreia do Sul não sofresse. Mesmo um ataque punitivo de precisão poderia gerar uma resposta imprevisível por parte do Norte.
A Coreia do Norte possui concentração bélica na área da fronteira, com mísseis e artilharia em prontidão. Além disso, o governo norte-coreano tem capacidade de produzir armas químicas e provavelmente possui grandes estoques de agentes nervosos, como demonstrado no assassinato do meio-irmão de Kim Jong-un.
Essa é a conclusão de, por exemplo, Steve Bannon, ex-Estrategista Chefe da Casa Branca.
Em agosto de 2017, ele disse: “Enquanto ninguém solucionar a equação que mostra que dez milhões de pessoas em Seul morreriam nos primeiros trinta minutos, não existe solução militar”.
Somam-se os cerca de duzentos mil cidadãos dos EUA que estão na Coreia do Sul cotidianamente e o problema só aumenta. Foram a continuidade das sanções e as pressões longe das câmeras que deram reSultado.
A Coreia do Norte
Uma dessas pressões fora da fácil sedução midiática foi a visita secreta de Mike Pompeo, então Diretor da CIA e atual Secretário de Estado, à Coreia do Norte, no início de abril de 2018. Nela, acertaram detalhes dos futuros encontros entre líderes e Pompeo afirmou ter recebido um real compromisso com a “desnuclearização”.
O mesmo raciocínio exposto sobre a Coreia do Sul deve ser repetido aqui. Qual o motivo da Coreia do Norte ter tomado passos inéditos rumo ao Sul? Pois agora ela tem algo com que pode barganhar, uma carta à ser colocada na mesa. O que explica o desenvolvimento de armas nucleares pela Coreia do Norte, além da caricatura de líder que deseja explodir o mundo?
Enquanto a Coreia do Sul se democratizava e desenvolvia, a Coreia do Norte perdeu sua então principal aliada, a URSS, e passou por diversas crises econômicas e desastres climáticos. Ficou então explícito que, em uma reunificação, o Sul, mais forte, mais rico e mais conhecido, agora seria o protagonista dessa reunificação, ditando os termos ao Norte.
Como forma de balancear essa disparidade, a Coreia do Norte adota a política do Songun, em que as forças militares do país devem ser a prioridade do Estado. Para o governo da família Kim, ser uma potência militar garantiria a independência e a influência do país.
Como o Norte não teria como competir com os gastos militares convencionais sul-coreanos, prioriza-se o desenvolvimento de armas nucleares e mísseis balísticos, meios de lançamento de armas de destruição em massa. Desde o citado teste nuclear de 2006, foram realizados mais cinco testes de detonação, incluindo o de uma bomba de hidrogênio, em setembro de 2017.
Atualmente, especula-se que a Coreia do Norte precisaria apenas de alguns meses para sofisticar a reentrada de suas ogivas nucleares, concluindo um ciclo bélico que é a soma de ogivas nucleares miniaturizadas e mísseis balísticos intercontinentais.
Numa mesa de negociações, hoje, a Coreia do Norte terá muito mais poder de barganha do que tinha dez anos atrás; na ocasião, se o Norte exigisse a saída dos EUA da península, receberia como um resposta “E o que você tem a oferecer em troca?”. A resposta seria nada.
Se a economia e a influência do Norte são uma fração da do Sul, hoje a Coreia do Norte possui algo de interesse: o arsenal nuclear. E é nas entrelinhas que se deve entender o que a Coreia do Norte diz com “desnuclearização” da península coreana. Não se trata apenas de desmantelar o seu programa nuclear, mas o que a Coreia do Norte conseguirá com isso.
Trata-se de abordagem realista das relações internacionais, no qual uma parte de uma negociação buscará ao máximo equiparar o seu poder de barganha com a outra parte, focando seus interesses no que conseguirá em troca. Puro pragmatismo. Isso ficou explícito em 21 de abril, antes da cúpula coreana, quando Kim Jong-un anunciou para a população do Norte a suspensão do programa nuclear norte-coreano.
Na ocasião, afirmou que “o trabalho sob cintos apertados” permitiu a aquisição de “poderosa e cobiçada espada”, uma “garantia firme para nossos descendentes”.
Continuou que o país contribuirá para um mundo sem armas nucleares “se o poder da Coreia do Norte for aceito no nível desejado e seja possível uma garantia confiável de segurança do regime e do povo”. Sua conclusão foi de que agora é o momento de um novo curso para a Coreia do Norte, o do desenvolvimento econômico.
Mais um exemplo pode ser visto em outra entrevista da Ministra de Relações Exteriores sul-coreana Kang Kyung-wha, dessa vez para a Fox News, em que ela afirma que “Kim Jong-un já indicou que, se ele tiver garantias da segurança (do seu país), ele não precisa de armas nucleares”.
Simplificando, o arsenal nuclear norte-coreano será uma moeda de troca para a manutenção da influência do regime em processos de paz e uma eventual reunificação, objetivo que já podia ser previsto ainda no início de 2016, durante o governo de Barack Obama.
A capacidade de desenvolver esse arsenal será usada como salvaguarda retórica, no mínimo. Apenas após a conclusão desse ciclo bélico, que dá aos norte-coreanos um poder de barganha nas conversas com o Sul, tornou-se interessante para Kim Jong-un sinalizar uma reaproximação, em sua mensagem de Ano Novo de 2018. Momento de confiança em ter algo que coloca o país em posição mais confortável na mesa de negociação.
China e Japão
Outros dois atores cujos interesses e importância não podem ser esquecidos são China e Japão. A China tem se distanciado de seu histórico aliado da Coreia do Norte, mas está longe de desejar um colapso do regime de Pyongyang. Primeiro, isso possivelmente significaria uma Coreia unificada sob o Sul, aliada dos EUA, em sua fronteira.
Segundo, e mais importante, um conflito ou colapso de regime causaria uma leva de milhões de refugiados em sua fronteira — principal ponto de entrada e de saída da Coreia do Norte. Não à toa, a primeira viagem ao exterior de Kim Jong-un foi para Pequim, onde se encontrou com Xi Jinping por dois ou três dias. A China é um dos possíveis locais para um encontro entre Kim Jong-un e Donald Trump. O interesse chinês, acima de tudo, é na estabilidade na península.
Além dos motivos citados em relação ao Norte, hoje a China é a principal parceira da Coreia do Sul, destino de 24% das exportações Sul-coreanas e um volume comercial bilateral total de mais de 140 bilhões de dólares. Quanto mais estabilidade, melhor o clima para negócios com ambas as repúblicas coreanas. Detalhe que não deve ser ignorado é que a China é um dos três signatários do armistício coreano de 27 de julho de 1953; as outras partes foram os EUA, em nome do Comando das Nações Unidas, e a Coreia do Norte.
Já o Japão tem interesses diversos na península. Por um lado, como aliado dos EUA e antagonista histórico dos coreanos, é alvo dos testes de mísseis norte-coreanos, ou seja, deseja uma península estável. Por outro, não pode-se dizer que uma Coreia unificada seja um sonho do Estado japonês, já que isso afetaria os interesses do país e sua competitividade econômica.
Mesmo entre Japão e a Coreia do Sul existem eventuais trocas de farpas e divergências; a mais recente ocorreu justo na ocasião da cúpula coreana, já que a silhueta coreana unificada foi utilizada para o encontro de Kim Jong-un e Moon Jae-in. O mapa incluiu as ilhas Dokdo, sob controle atual do Sul, como posse coreana; elas são reivindicadas pelo Japão, que as chama de Takeshima. O mapa foi utilizado ao menos nas cadeiras onde se sentaram os dois líderes e como um enfeite de uma sobremesa, além de estar presente em diversas fotos e imagens — o que gerou um protesto do Ministério de Relações Exteriores japonês.
Outra pauta importante e sensível, que por si só justifica conversas entre os envolvidos, é evitar a disseminação de material e de tecnologia nuclear por parte da Coreia do Norte, seja por vias irregulares quanto para definir quais os parâmetros cabíveis para o tratamento dessa propriedade.
Aceitar a Coreia do Norte como uma potência nuclear está fora das opções, não apenas por Trump, mas por isso significar um perigoso recado para a comunidade internacional, que poderia resultar em outros países realizando plano similar e desenvolvendo seu próprio arsenal. Caberá aos EUA e ao governo Trump unir todos seus interesses e de seus aliados com as sutilezas da região na cúpula vindoura.
O futuro
A realidade é que o diálogo entre as Coreias e todas as pautas relacionadas, como a desnuclearização da Coreia do Norte, constituem cenário complexo, de intrincadas relações que remetem a décadas atrás.
E foi uma junção de fatores que possibilitou a mais recente cúpula de diálogo.
Principalmente, as vontades de ambos os governos coreanos, os protagonistas desse cenário. Pode parecer, numa primeira vista, que a novidade imediata é Trump com uma política de sanções ou uma retórica de força, mas isso já existia antes dele. O que mudou foi o estabelecimento de maior poder de barganha do Norte aliado a uma ampla mudança de política do Sul. A isso soma-se a manutenção e ampliação das sanções realizadas por Trump, que trouxeram ainda mais a China para o centro dos interesses.
Essa foi a grande contribuição do atual governo dos EUA, que impulsiona um diálogo quadripartite, entre as protagonistas repúblicas coreanas e seus respectivos aliados poderosos. Teimar em negar essa realidade, seja por ideologia ou por imediatismo, é contrariar até mesmo a cronologia dos eventos. Deve-se frisar que nada de concreto foi acordado ainda. O encontro entre os líderes coreanos foi muito bem recebido e terminou em compromissos simbólicos e alguns também empíricos, como a organização de um novo encontro entre famílias separadas pela guerra ainda esse ano e a melhoria da infraestrutura que liga os dois países. Principalmente, foi declarada a possibilidade de um acordo de paz duradouro entre as Coreias ainda em 2018. Nada foi comprometido, entretanto.
A Coreia do Norte continua com ogivas nucleares e mísseis balísticos, embora tenha suspendido seu programa. Pode afirmar que a suspensão valia enquanto duravam as conversas e retomar o projeto nuclear no dia seguinte, no futuro pode adotar uma política mais agressiva, pode ocorrer uma troca de governo em Seul, Trump já declarou que pode sair das negociações caso sinta-se passado para trás, uma miríade de opções tão complexas quanto as que possibilitaram esse momento.
O encontro, por mais otimista que possa ter soado, ainda é um passo inicial, que pode fracassar em breve ou no longo prazo, dependendo do comportamento dos atores envolvidos.
Esse é outro motivo para evitar louvores precipitados, já que fracassos futuros dificilmente contarão com o mesmo entusiasmo em reivindicar responsáveis para si.
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https://www.youtube.com/watch?v=2HvNYs8A-fs
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O mérito de Donald Trump na nova política de paz Coreana

Source:
https://xadrezverbal.com/2018/05/01/dialogo-entre-as-coreias-e-merito-de-trump/
http://www.gazetadopovo.com.bideias/dialogo-entre-as-coreias-e-merito-de-trump-a-historia-mostra-que-nao-cq6mfqmq35smke6zb2g31u791
O encontro entre Kim Jong-un, ditador da Coreia do Norte, e o presidente da Coreia do Sul Moon Jae-in, na linha que divide os dois países já é histórico. Pela primeira vez, um líder do Norte pisou no território vizinho. Os poucos diálogos de alto nível que ocorreram antes não tiveram uma fração da exposição da última cúpula. Apertos de mão, sorrisos, diplomacia gastronômica, saídas de protocolo e até gracejos fizeram parte do encontro, tudo muito bem fotografado e televisionado.
A intenção é criar simpatia e confiança nas conversas, mostrar ao mundo que os dois líderes estão dispostos e comprometidos ao diálogo, um chamariz para o apoio e participação de outros países. O entusiasmo com o evento, entretanto, pode precipitar análises e conclusões, gerando conjecturas equivocadas.
Postura comum em circunstâncias desse tipo é querer atribuir o quanto antes méritos ou deméritos, normalmente para ganho de capital político. No presente caso, quem seria o responsável pelo encontro inédito? A quem cabe os elogios?
Em uma das possíveis respostas, muitas pessoas correram em louvar o papel do presidente dos EUA, Donald Trump, na crise, como o principal responsável pela cúpula. Independentemente dos motivos e das intenções de tal conclusão, ela é imediatista e equivocada. O que também não quer dizer que Trump não tenha qualquer participação, mas que ela está inserida em conjuntura muito mais ampla, com outros interesses e atores mais decisivos.

A Coreia do Sul

Ambos os governos coreanos consideram-se, desde 1948, como o único e legítimo governo de toda a península da Coreia. Não existe um reconhecimento diplomático e jurídico mútuo, assim como a Guerra da Coreia foi encerrada em 1953 com um armistício, não um tratado de paz duradouro, que consagrou a fronteira estabelecida pelas zonas de ocupação ao final da Segunda Guerra Mundial.
As duas repúblicas coreanas, além de se considerarem a única, possuem órgãos de alto nível para a reunificação, o Ministério de Reunificação ao Sul e o Comitê para a Reunificação Pacífica da Pátria ao Norte. Até a década de 1980, ambas as repúblicas estavam em patamares semelhantes na economia e em poderio militar. É quando o caminho dos dois países vai, simultaneamente, se aproximar e também se distanciar.
As décadas de permanente hostilidade e tensão bélica deram lugar aos primeiros atos de cooperação pontual. Em 1984, a Coreia do Norte enviou ajuda humanitária ao Sul. No ano seguinte, ocorre a primeira reunião de famílias que foram separadas pela guerra. Em 1991, ambos os países foram aceitos como membros da ONU e foi inaugurada a Bandeira da Reunificação, que exibe o contorno de toda a península coreana, com a participação unificada no Mundial de Tênis de Mesa. Em 1998, a Coreia do Sul enviou ajuda humanitária ao Norte. Em 2002 foi inaugurado o complexo industrial de Kaesong, na Coreia do Norte, que une mão-de-obra Norte-coreana e investimentos de empresas Sul-coreanas.
O distanciamento também ocorre na década de 1980, com o fim da ditadura militar Sul-coreana da Guerra Fria. Eleições são realizadas em 1981 para governos de transição e é estabelecida uma nova constituição em 1988. A economia Sul-coreana, em ascensão na década de 1970 e que começava a enfrentar uma crise, é beneficiada pela reforma política, que possibilita a abertura para investimentos estrangeiros. Entre 1982 e 1987, a Coreia do Sul cresce em torno de 9% ao ano, com um crescimento de 12% apenas no ano de 1988. Hoje, a economia Sul-coreana é uma das quinze maiores do mundo.
Esses trinta anos de crescimento e democracia fazem com que, hoje, a Coreia do Sul esteja muito à frente de seus vizinhos ao Norte na maioria dos critérios. Poder econômico e qualidade de vida são os principais, mas também dois desdobramentos desses. A indústria bélica e as forças armadas Sul-coreanas contam com orçamentos generosos, difíceis de serem enfrentados de maneira convencional.
Além disso, a Coreia do Sul está presente mundialmente. Enquanto a Coreia do Norte é praticamente um pária internacional, existe ampla simpatia pelos sul-coreanos, derivada do contato com a cultura e o consumo de marcas coreanas de carros, eletrônicos, jogos, música e demais aspectos da cultura pop.
O histórico de hostilidades, a herança dos governos militares, o distanciamento entre as Coreias e as regras democráticas reSultam no fato de que a postura do governo sul-coreano em relação ao Norte sofre mudanças.
Na verdade, a posição em relação ao conflito coreano é um dos mais importantes aspectos eleitorais no Sul. De um lado, os adeptos da aproximação e de uma reunificação pacífica e gradual, destacando a irmandade entre as duas populações e as possibilidades de investimentos para a economia do Sul. Do outro, os que alegam que hoje existe uma distância muito grande entre os dois países, que uma reunificação deve ocorrer pelo protagonismo do Sul e que o Sul deve se manter em constante estado de prontidão.
A segunda postura é o caso do partido Saenuri, atualmente Partido da Liberdade, partido da ex-presidente Park Geun-hye, filha do ex-ditador Park Chung-hee e de postura cética em relação ao Norte. Ela governou a Coreia do Sul entre 2013 e 2017, quando sofreu impeachment no surreal caso de corrupção das Fadas Celestiais. Seu antecessor foi Lee Myung-bak, que governou entre 2008 e 2013 e também é réu em processo por corrupção, talvez o presidente sul-coreano em período democrático mais linha-dura perante o Norte. Hoje, cerca de um terço do parlamento sul-coreano é ocupado por políticos no mínimo céticos com uma aproximação e diálogo com o Norte.
O partido com a maioria dos assentos, 121 de 300, é do Partido Democrático, do atual presidente Moon Jae-in. Moon nasceu dois anos após seus pais serem evacuados do Norte durante a Guerra da Coreia, no chamado Milagre de Natal de 1950. Além de ser um filho de refugiados do Norte, Jae-in é apenas o segundo católico eleito para a presidência do país. Após formar-se em Direito, militou nos anos 1980 e nos anos 1990 em casos de violações de direitos humanos ocorridos durante a ditadura do país. Após trabalhar na campanha presidencial de Roh Moo-hyun, Moon foi eleito para a Assembleia Nacional em 2012. Tanto em seu mandato como deputado como em sua campanha presidencial, Moon Jae-in advogou enfaticamente a retomada do diálogo com a Coreia do Norte.
Mais que isso, ele afirma a importância das relações com os EUA, um “amigo e aliado”, tendo solicitado o posicionamento do sistema antimísseis em seu país, mas defende que assuntos da península da Coreia devem ser protagonizados pelos coreanos. O tom conciliador, entretanto, não se baseia em um diálogo feito apenas de concessões; Moon Jae-in repetidas vezes destacou a necessidade do fim do arsenal nuclear do Norte.
Foi nessas bases em que ele foi eleito presidente em 2017, com 41% dos votos, contra 24% do segundo candidato. Após quase uma década de governos linha dura ou céticos com o Norte, a Coreia do Sul elegeu alguém cuja principal proposta era a do diálogo com a vizinha. Deve-se salientar que foram as duas repúblicas coreanas que sentaram na mesma mesa para dialogar, ou seja, são esses dois os atores principais, cujos interesses e contextos não podem ser colocados em segundo plano. No caso do Sul, sem os esforços de Moon Jae-in e de seu gabinete, agindo com respaldo doméstico, a cúpula coreana não poderia ter ocorrido.

Os EUA e as sanções

Desde a Guerra da Coreia, as relações entre EUA e a Coreia do Norte são extra-oficiais, já que Washington considera Seul a representante oficial coreana. Esse histórico é marcado por momentos de hostilidades e breves pontuações de diálogo. A principal ferramenta dessa relação é a sanção econômica e política. A Coreia do Norte está sob sanções dos EUA desde o ano de 1950, quando o país foi inserido no Trading with the enemy Act (Negociando com o inimigo) de 1917, um marco regulatório para comércio entre empresas e cidadãos dos EUA e países hostis, assim como a presença de empresas desses países em território de soberania dos EUA; o país foi retirado do ato no século XXI, substituído por outras sanções.
Algo que precisa ser destacado é que o combate à proliferação nuclear e a política de sanções contra a Coreia do Norte, nos EUA, é bipartidário. É uma política de Estado, que antecede e sucede qualquer presidente. O processo de sanções dos EUA intensifica-se após a recusa Norte-coreana de aceitar inspetores em suas instalações nucleares e a notificação de que se retiraria do Tratado de Não-proliferação. Sanções afetando diretamente a Coreia do Norte são aprovadas em 1992, 1996, 1997, 1998, 2000, 2001, 2002 e 2006; período que envolve três diferentes presidentes dos EUA, George Bush, Bill Clinton e George W. Bush, de ambos os principais partidos.
Esse processo é longo e detalhado. Até 2006, é marcado por idas e vindas, pressões amenizadas com concessões. Por exemplo, em 1999, a Coreia do Norte declara que congelará por prazo indeterminado seus testes com mísseis, o que é acompanhado de concessões pelo governo Clinton; tal congelamento chega ao fim em 2005.
Em outubro de 2006, a Coreia do Norte realiza seu primeiro teste de uma arma nuclear.
O governo dos EUA passa então a tratar o tema das sanções em duas frentes.
Além das impostas pelo país, leva o tema ao Conselho de Segurança da ONU (CSNU). Unanimemente são aprovadas sanções contra a Coreia do Norte na Resolução 1718 e é criado um órgão específico para elas. Esse é outro fator de grande importância. As sanções pelo Conselho de Segurança contaram com aprovação chinesa, a potência mais próxima da Coreia do Norte. Além disso, as sanções do CSNU são vinculantes a todos os países-membro, não dependendo apenas do esforço dos EUA em verificar se elas são cumpridas.
De 2006 ao início de 2018, são aprovadas nove resoluções no Conselho de Segurança da ONU no tema de sanções contra a Coreia do Norte. Uma das mais importantes é de novembro de 2016, que restringe exportações Norte-coreanas de carvão mineral e outros minerais. A importância se dá pelo fato de a China não apenas aceitar tal sanção, mas ser um dos primeiros países a anunciar seu cumprimento. Em fevereiro de 2017, a China vai além e declara que não importaria mais carvão da Coreia do Norte. Mais de 90% do comércio norte-coreano é com a China, mostrando que o envolvimento chinês na política de sanções deixaria a Coreia do Norte extremamente vulnerável - e em sinal de alerta.
Além das resoluções no CSNU, o governo dos EUA promoveu sanções próprias contra a Coreia do Norte durante todo esse período, que corresponde a três presidentes, de ambos os partidos: George W. Bush, Barack Obama e Donald Trump. Tanto Obama quanto Trump também usaram ordens executivas para temas norte-coreanos.
Uma política de sanções não gera reSultados instantâneos, da noite para o dia. A Coreia do Norte é enfraquecida e isolada progressivamente desde a década de 1990, com cada vez mais intensidade. Nenhum governo desde Bill Clinton amenizou o que foi feito antes, ao contrário. Possivelmente chegou-se ao ponto da Coreia do Norte estar com um prazo em que ficará sem combustíveis. A necessidade Norte-coreana de variar e ampliar sua economia não é decorrente de uma política de um ano, mas do desgaste de décadas, o que não quer dizer que Trump não tenha méritos.
Um dos méritos foi o de não seguir alguns de seus conselheiros de deixar de lado o multilateralismo e manter a pressão e as sanções via CSNU. Durante o governo Trump foram aprovadas três das nove resoluções; uma foi ainda no governo George W. Bush e cinco no governo Obama.
Isso, além dos benefícios já citados, dá autoridade para os EUA punir infratores das sanções e também contribui para manter a China envolvida nas sanções. E entra o principal mérito de Trump nesse processo, em sancionar não apenas a Coreia do Norte, suas empresas, seus nacionais e atividades diretas, mas também os que indiretamente realizam negócios com a Coreia do Norte. Nessa seara, Trump e seu governo criaram uma lista de navios, aviões e empresa cujas atividades incluem destinos norte-coreanos. Isso incluiu empresas chinesas, como Beijing Chengxing Trading Co e Dandong Jinxiang Trade, e forçou o governo chinês a aumentar a fiscalização de atividades com a Coreia do Norte.
É nesse sentido que a Ministra de Relações Exteriores da Coreia do Sul, Kang Kyung-wha, creditou Trump em entrevista à Christiane Amanpour da CNN. Isso pode ser visto na íntegra da entrevista, de cerca de onze minutos, em contraste à versão editada para uso em redes sociais.
Na conversa, Kang Kyung-wha deu créditos a Trump por manter-se engajado no assunto junto ao seu presidente e manter pressão via as sanções. Na mesma entrevista, Kang Kyung-wha, além de obviamente destacar o papel de seu governo e de seu presidente, declarou ver “intenções legítimas” de dialogar em Kim Jong-un.
É necessário ir além de declarações de manchetes e compreender a conjuntura ampla. A diplomata Sul-coreana creditou seu principal aliado como qualquer parceiro faria, mas destacou as sanções, não dando atenção no tema do tom belicoso, que foi trazido para a conversa pela jornalista.
Não foram as declarações belicosas ou ameaças de Trump que contribuíram para o processo, mas a manutenção e intensificação inteligente de uma política que já existia.
A cronologia e os números, inclusive, dizem o contrário, que a diplomacia de “testosterona” de Trump foi meramente retrucada. Em pouco mais de um ano de governo Trump, a Coreia do Norte realizou dezesseis testes de mísseis balísticos; durante todo o governo Obama, foram doze testes.
Seu pronunciamento de “fogo e fúria” contra a Coreia do Norte foi sucedido pelo primeiro teste balístico que sobrevoou o Japão em uma trajetória de lançamento, gerando alarmes. Trump afirmou, perante a Assembleia Geral da ONU, que os EUA poderiam se ver forçados a destruir a Coreia do Norte. Dois meses depois a Coreia do Norte testou o míssil Hwasong-15, que analistas afirmam possuir capacidade de atingir todo o território continental dos EUA; mesmo que se duvide dessa capacidade, está claro que são possíveis ataques de mísseis norte-coreanos ao menos contra alvos inSulares, como Guam e Havaí, e a costa oeste, onde estão cidades como Los Angeles e São Francisco.
O governo Trump, assim como os antecessores, trabalha com as opções militares na mesa, embora improváveis. A demonstração de força é importante, inclusive para pressionar durante as negociações e conversas diplomáticas. É com essa lógica que os EUA mantém seu exercício anual militar com a Coreia do Sul desde a década de 1960, além de manutenção permanente de tropas no Sul.
Bush colocava a Coreia do Norte como parte do “Eixo do Mal”. Obama afirmou que os EUA “poderiam destruir a Coreia do Norte” devido ao comportamento “errático” de Kim Jong-un. Entretanto, uma opção militar contra a Coreia do Norte é algo extremamente arriscado. Além do óbvio risco de escalada, com o envolvimento dos vizinhos no conflito, e da possível retaliação Norte-coreana contra os EUA, seria virtualmente impossível evitar que a Coreia do Sul não sofresse. Mesmo um ataque punitivo de precisão poderia gerar uma resposta imprevisível por parte do Norte.
A Coreia do Norte possui concentração bélica na área da fronteira, com mísseis e artilharia em prontidão. Além disso, o governo norte-coreano tem capacidade de produzir armas químicas e provavelmente possui grandes estoques de agentes nervosos, como demonstrado no assassinato do meio-irmão de Kim Jong-un.
Essa é a conclusão de, por exemplo, Steve Bannon, ex-Estrategista Chefe da Casa Branca.
Em agosto de 2017, ele disse: “Enquanto ninguém solucionar a equação que mostra que dez milhões de pessoas em Seul morreriam nos primeiros trinta minutos, não existe solução militar”.
Somam-se os cerca de duzentos mil cidadãos dos EUA que estão na Coreia do Sul cotidianamente e o problema só aumenta. Foram a continuidade das sanções e as pressões longe das câmeras que deram reSultado.

A Coreia do Norte

Uma dessas pressões fora da fácil sedução midiática foi a visita secreta de Mike Pompeo, então Diretor da CIA e atual Secretário de Estado, à Coreia do Norte, no início de abril de 2018. Nela, acertaram detalhes dos futuros encontros entre líderes e Pompeo afirmou ter recebido um real compromisso com a “desnuclearização”.
O mesmo raciocínio exposto sobre a Coreia do Sul deve ser repetido aqui. Qual o motivo da Coreia do Norte ter tomado passos inéditos rumo ao Sul? Pois agora ela tem algo com que pode barganhar, uma carta à ser colocada na mesa. O que explica o desenvolvimento de armas nucleares pela Coreia do Norte, além da caricatura de líder que deseja explodir o mundo?
Enquanto a Coreia do Sul se democratizava e desenvolvia, a Coreia do Norte perdeu sua então principal aliada, a URSS, e passou por diversas crises econômicas e desastres climáticos. Ficou então explícito que, em uma reunificação, o Sul, mais forte, mais rico e mais conhecido, agora seria o protagonista dessa reunificação, ditando os termos ao Norte.
Como forma de balancear essa disparidade, a Coreia do Norte adota a política do Songun, em que as forças militares do país devem ser a prioridade do Estado. Para o governo da família Kim, ser uma potência militar garantiria a independência e a influência do país.
Como o Norte não teria como competir com os gastos militares convencionais sul-coreanos, prioriza-se o desenvolvimento de armas nucleares e mísseis balísticos, meios de lançamento de armas de destruição em massa. Desde o citado teste nuclear de 2006, foram realizados mais cinco testes de detonação, incluindo o de uma bomba de hidrogênio, em setembro de 2017.
Atualmente, especula-se que a Coreia do Norte precisaria apenas de alguns meses para sofisticar a reentrada de suas ogivas nucleares, concluindo um ciclo bélico que é a soma de ogivas nucleares miniaturizadas e mísseis balísticos intercontinentais.
Numa mesa de negociações, hoje, a Coreia do Norte terá muito mais poder de barganha do que tinha dez anos atrás; na ocasião, se o Norte exigisse a saída dos EUA da península, receberia como um resposta “E o que você tem a oferecer em troca?”. A resposta seria nada.
Se a economia e a influência do Norte são uma fração da do Sul, hoje a Coreia do Norte possui algo de interesse: o arsenal nuclear. E é nas entrelinhas que se deve entender o que a Coreia do Norte diz com “desnuclearização” da península coreana. Não se trata apenas de desmantelar o seu programa nuclear, mas o que a Coreia do Norte conseguirá com isso.
Trata-se de abordagem realista das relações internacionais, no qual uma parte de uma negociação buscará ao máximo equiparar o seu poder de barganha com a outra parte, focando seus interesses no que conseguirá em troca. Puro pragmatismo. Isso ficou explícito em 21 de abril, antes da cúpula coreana, quando Kim Jong-un anunciou para a população do Norte a suspensão do programa nuclear norte-coreano.
Na ocasião, afirmou que “o trabalho sob cintos apertados” permitiu a aquisição de “poderosa e cobiçada espada”, uma “garantia firme para nossos descendentes”.
Continuou que o país contribuirá para um mundo sem armas nucleares “se o poder da Coreia do Norte for aceito no nível desejado e seja possível uma garantia confiável de segurança do regime e do povo”. Sua conclusão foi de que agora é o momento de um novo curso para a Coreia do Norte, o do desenvolvimento econômico.
Mais um exemplo pode ser visto em outra entrevista da Ministra de Relações Exteriores sul-coreana Kang Kyung-wha, dessa vez para a Fox News, em que ela afirma que “Kim Jong-un já indicou que, se ele tiver garantias da segurança (do seu país), ele não precisa de armas nucleares”.
Simplificando, o arsenal nuclear norte-coreano será uma moeda de troca para a manutenção da influência do regime em processos de paz e uma eventual reunificação, objetivo que já podia ser previsto ainda no início de 2016, durante o governo de Barack Obama.
A capacidade de desenvolver esse arsenal será usada como salvaguarda retórica, no mínimo. Apenas após a conclusão desse ciclo bélico, que dá aos norte-coreanos um poder de barganha nas conversas com o Sul, tornou-se interessante para Kim Jong-un sinalizar uma reaproximação, em sua mensagem de Ano Novo de 2018. Momento de confiança em ter algo que coloca o país em posição mais confortável na mesa de negociação.

China e Japão

Outros dois atores cujos interesses e importância não podem ser esquecidos são China e Japão. A China tem se distanciado de seu histórico aliado da Coreia do Norte, mas está longe de desejar um colapso do regime de Pyongyang. Primeiro, isso possivelmente significaria uma Coreia unificada sob o Sul, aliada dos EUA, em sua fronteira.
Segundo, e mais importante, um conflito ou colapso de regime causaria uma leva de milhões de refugiados em sua fronteira — principal ponto de entrada e de saída da Coreia do Norte. Não à toa, a primeira viagem ao exterior de Kim Jong-un foi para Pequim, onde se encontrou com Xi Jinping por dois ou três dias. A China é um dos possíveis locais para um encontro entre Kim Jong-un e Donald Trump. O interesse chinês, acima de tudo, é na estabilidade na península.
Além dos motivos citados em relação ao Norte, hoje a China é a principal parceira da Coreia do Sul, destino de 24% das exportações Sul-coreanas e um volume comercial bilateral total de mais de 140 bilhões de dólares. Quanto mais estabilidade, melhor o clima para negócios com ambas as repúblicas coreanas. Detalhe que não deve ser ignorado é que a China é um dos três signatários do armistício coreano de 27 de julho de 1953; as outras partes foram os EUA, em nome do Comando das Nações Unidas, e a Coreia do Norte.
Já o Japão tem interesses diversos na península. Por um lado, como aliado dos EUA e antagonista histórico dos coreanos, é alvo dos testes de mísseis norte-coreanos, ou seja, deseja uma península estável. Por outro, não pode-se dizer que uma Coreia unificada seja um sonho do Estado japonês, já que isso afetaria os interesses do país e sua competitividade econômica.
Mesmo entre Japão e a Coreia do Sul existem eventuais trocas de farpas e divergências; a mais recente ocorreu justo na ocasião da cúpula coreana, já que a silhueta coreana unificada foi utilizada para o encontro de Kim Jong-un e Moon Jae-in. O mapa incluiu as ilhas Dokdo, sob controle atual do Sul, como posse coreana; elas são reivindicadas pelo Japão, que as chama de Takeshima. O mapa foi utilizado ao menos nas cadeiras onde se sentaram os dois líderes e como um enfeite de uma sobremesa, além de estar presente em diversas fotos e imagens — o que gerou um protesto do Ministério de Relações Exteriores japonês.
Outra pauta importante e sensível, que por si só justifica conversas entre os envolvidos, é evitar a disseminação de material e de tecnologia nuclear por parte da Coreia do Norte, seja por vias irregulares quanto para definir quais os parâmetros cabíveis para o tratamento dessa propriedade.
Aceitar a Coreia do Norte como uma potência nuclear está fora das opções, não apenas por Trump, mas por isso significar um perigoso recado para a comunidade internacional, que poderia resultar em outros países realizando plano similar e desenvolvendo seu próprio arsenal. Caberá aos EUA e ao governo Trump unir todos seus interesses e de seus aliados com as sutilezas da região na cúpula vindoura.

O futuro

A realidade é que o diálogo entre as Coreias e todas as pautas relacionadas, como a desnuclearização da Coreia do Norte, constituem cenário complexo, de intrincadas relações que remetem a décadas atrás.
E foi uma junção de fatores que possibilitou a mais recente cúpula de diálogo.
Principalmente, as vontades de ambos os governos coreanos, os protagonistas desse cenário. Pode parecer, numa primeira vista, que a novidade imediata é Trump com uma política de sanções ou uma retórica de força, mas isso já existia antes dele. O que mudou foi o estabelecimento de maior poder de barganha do Norte aliado a uma ampla mudança de política do Sul. A isso soma-se a manutenção e ampliação das sanções realizadas por Trump, que trouxeram ainda mais a China para o centro dos interesses.
Essa foi a grande contribuição do atual governo dos EUA, que impulsiona um diálogo quadripartite, entre as protagonistas repúblicas coreanas e seus respectivos aliados poderosos. Teimar em negar essa realidade, seja por ideologia ou por imediatismo, é contrariar até mesmo a cronologia dos eventos. Deve-se frisar que nada de concreto foi acordado ainda. O encontro entre os líderes coreanos foi muito bem recebido e terminou em compromissos simbólicos e alguns também empíricos, como a organização de um novo encontro entre famílias separadas pela guerra ainda esse ano e a melhoria da infraestrutura que liga os dois países. Principalmente, foi declarada a possibilidade de um acordo de paz duradouro entre as Coreias ainda em 2018. Nada foi comprometido, entretanto.
A Coreia do Norte continua com ogivas nucleares e mísseis balísticos, embora tenha suspendido seu programa. Pode afirmar que a suspensão valia enquanto duravam as conversas e retomar o projeto nuclear no dia seguinte, no futuro pode adotar uma política mais agressiva, pode ocorrer uma troca de governo em Seul, Trump já declarou que pode sair das negociações caso sinta-se passado para trás, uma miríade de opções tão complexas quanto as que possibilitaram esse momento.
O encontro, por mais otimista que possa ter soado, ainda é um passo inicial, que pode fracassar em breve ou no longo prazo, dependendo do comportamento dos atores envolvidos.
Esse é outro motivo para evitar louvores precipitados, já que fracassos futuros dificilmente contarão com o mesmo entusiasmo em reivindicar responsáveis para si.
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O pior da agenda tóxica de Donald Trump só será desencadeado com uma grande crise nos EUA

O pior da agenda tóxica de Donald Trump só será desencadeado com uma grande crise nos EUA
by Naomi Klein via The Intercept
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Durante a campanha presidencial, algumas pessoas achavam que os pontos mais abertamente racistas da plataforma de Donald Trump eram apenas uma estratégia para causar irritação, não um plano de ação concreto. Porém, na primeira semana de seu mandato, quando ele vetou a entrada de cidadãos de sete países de maioria muçulmana, a ilusão logo foi desfeita. Felizmente, a reação foi imediata: marchas e protestos em aeroportos, greves de taxistas, manifestações de advogados e políticos locais. Por fim, o veto foi considerado ilegal pela Justiça americana.
Esse episódio mostrou a força da resistência e a coragem da Justiça; havia muito o que comemorar. Alguns chegaram a dizer que essa primeira derrota havia disciplinado Trump, que a partir de então seguiria uma rota mais convencional e racional.
Outra perigosa ilusão.
É verdade que muitos dos itens mais radicais da agenda do governo ainda não foram realizados. Mas não se enganem; ele não abandonou seus projetos. Eles estão bem guardados, à espreita, e uma grande crise pode trazê-los à tona.
Grandes choques costumam ser aproveitados para nos empurrar goela abaixo medidas impopulares e antidemocráticas a favor dos grandes empresários que jamais seriam aprovadas em tempos de estabilidade. É a “Doutrina do Choque”, nome que utilizei para descrever esse fenômeno. Ela foi utilizada repetidamente nas últimas décadas, seja por ditadores como Augusto Pinochet ou por presidentes americanos, como no caso do furacão Katrina.
Vimos a Doutrina do Choque em ação recentemente, antes da eleição de Trump, em cidades americanas como Detroit e Flint, onde a falência financeira do município foi usada como pretexto para dissolver a democracia local e nomear “gestores emergenciais”, que declararam guerra aos serviços e educação públicos. O mesmo está acontecendo em Porto Rico, onde a crise da dívida foi a desculpa utilizada para a criação do Conselho de Gestão e Supervisão Financeira, uma entidade que, sem precisar prestar contas a ninguém, tem o poder de implementar medidas de austeridade como cortes previdenciários e fechamento de escolas. A mesma tática está sendo usada no Brasil, onde, após o bastante questionável impeachment da presidente Dilma Rousseff, instalou-se um regime ilegítimo e ferventemente pró-empresariado. Entre as medidas adotadas estão o congelamento dos gastos públicos por 20 anos e o leilão de aeroportos, usinas de energia e outros ativos públicos, em um verdadeiro frenesi privatizante.
Como escreveu Milton Friedman, muitos anos atrás, “apenas uma crise – real ou presumida – produz mudanças. Quando uma crise ocorre, as medidas adotadas dependem das ideias presentes na paisagem política. Esta é a nossa função primordial: desenvolver alternativas às políticas existentes, mantendo-as ao alcance da mão até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável”. Certos alarmistas estocam comida enlatada e água para o caso de um grande desastre natural; outros estocam ideias espetacularmente antidemocráticas.
Agora, como muitos já perceberam, a história está se repetindo com Donald Trump. Durante a campanha, ele não disse a seus admiradores que iria cortar verbas de programas de fornecimento de alimentos a pessoas necessitadas. Ele também nunca admitiu que iria tentar tirar o plano de saúde de milhões de americanos ou adotar cada uma das medidas sugeridas pelo grupo Goldman Sachs. Não, ele disse o contrário de tudo isso.
Desde que assumiu a presidência, Donald Trump não fez o menor esforço para dissipar a atmosfera de caos e crise. Algumas turbulências, como o dossiê russo, surgiram contra a sua vontade ou por pura incompetência, mas muitas delas parecem ter sido deliberadamente fabricadas. Em todo caso, enquanto estamos distraídos pelo espetáculo Trump, ávidos por notícias sobre suas supostas crises conjugais ou globos luminosos, seu projeto de concentração de renda segue em frente, metódico e silencioso.
A velocidade das mudanças também contribui para isso. Com o tsunami de decretos presidenciais assinados nos 100 primeiros dias do governo de Trump, logo ficou claro que seus assessores estavam seguindo o conselho dado por Maquiavel em O Príncipe: “As injúrias devem ser feitas todas de uma vez, de forma que, sendo menos saboreadas, causem menos ofensa”. A lógica é simples: é mais fácil resistir a mudanças graduais e contínuas; se as transformações acontecem de uma só vez, a população não consegue se organizar para lidar com todas ao mesmo tempo, acabando por engolir o sapo.
Mas tudo isso não passa de uma versão light da Doutrina do Choque; é o máximo que Trump pode fazer com as pequenas crises que ele mesmo cria. Embora seja necessário denunciar e resistir ao que está sendo feito agora, também deveríamos nos preocupar com o que Trump fará quando puder se aproveitar de uma verdadeira crise. Talvez seja um _crash_econômico, como a crise das hipotecas _subprime_de 2008; ou uma catástrofe natural, como a Supertempestade Sandy; ou então um terrível ataque terrorista, como o atentado a bomba de Manchester. Qualquer uma dessas crises poderia alterar radicalmente a conjuntura política, transformando subitamente o que hoje parece improvável em algo inevitável.
Vamos analisar alguns cenários de choques possíveis, e como eles poderiam ser utilizados para tornar realidade a nociva agenda de Donald Trump.
Policiais se juntam ao público em St Ann’s Square, em Manchester, para observar as flores e mensagens em homenagem às vítimas do atentado de 22 de maio na Manchester Arena. (31 de maio de 2017)
Foto: Oli Scarff/AFP/Getty Images

Choque terrorista

Os recentes atentados em Londres, Manchester e Paris nos dão um indício de como o governo Trump tentaria explorar um grande ataque terrorista contra os EUA em seu próprio território ou no exterior. Depois do terrível atentado a bomba de Manchester, no mês passado, o governo conservador inglês lançou uma campanha feroz contra o Partido Trabalhista e Jeremy Corbyn, por este ter sugerido que o fracasso da “Guerra ao Terror” estaria alimentando o terrorismo. As declarações de Corbyn foram qualificadas de “monstruosas” – uma atitude muito parecida com a retórica “ou vocês estão conosco, ou com os terroristas” usada por George W. Bush após o ataque de 11 de Setembro de 2001. Para Donald Trump, o atentado foi consequência das “milhares e milhares de pessoas que estão entrando em vários países”, embora o terrorista – Salman Abedi – tenha nascido no Reino Unido.
Da mesma forma, logo após o atentado de Westminster, em março 2017, quando um motorista jogou um carro contra uma multidão de pedestres, matando quatro e deixando dezenas de feridos, o governo conservador logo declarou que a privacidade das comunicações digitais era uma ameaça à segurança nacional. A ministra do Interior, Amber Rudd, disse em um programa da BBC que a criptografia de programas como o Whatsapp era “totalmente inaceitável”. Ela afirmou estar negociando a “colaboração” das grandes empresas de tecnologia, para que elas forneçam ao governo um acesso especial a essas plataformas. Depois do atentado da London Bridge, ela voltou a atacar a privacidade na internet de forma ainda mais veemente.
De maneira ainda mais preocupante, depois dos atentados de Paris, em 2015 – que deixaram 130 mortos –, o governo de François Hollande declarou o estado de emergência na França, proibindo manifestações políticas. Estive na França uma semana depois daqueles horríveis acontecimentos e não pude deixar de estranhar o fato de que, embora os ataques tenham sido perpetrados contra os símbolos da vida parisiense cotidiana – um show, um estádio de futebol, restaurantes etc. –, apenas a atividade política nas ruas havia sido proibida. Grandes shows, mercados natalinos e eventos esportivos – alvos perfeitos para futuros atentados – continuaram funcionando normalmente. Nos meses seguintes, o estado de emergência foi repetidamente prolongado. Ele ainda está em vigor e deve durar pelo menos até julho de 2017. Na França, o estado de exceção virou a regra.
Isso foi feito por um governo de centro-esquerda em um país com uma longa tradição de greves e manifestações. Só uma pessoa ingênua acreditaria que Donald Trump e Mike Pence não aproveitariam um ataque terrorista nos EUA para ir ainda mais longe. A reação seria imediata, declarando manifestantes e grevistas que bloqueassem rodovias e aeroportos – os mesmos que reagiram ao veto à entrada de muçulmanos – uma ameaça à “segurança nacional”. Os líderes dos protestos seriam alvo de rigorosa vigilância e jogados na prisão.
Temos que nos preparar para o uso de crises de segurança como pretexto para intensificar a criminalização de grupos e comunidades que já estão na mira do governo: imigrantes latinos, muçulmanos, líderes do movimento Black Lives Matter, ativistas ambientais e jornalistas investigativos. Essa é uma possibilidade concreta. Em nome da luta contra o terrorismo, o secretário de Justiça, Jeff Sessions, poderia finalmente acabar com a supervisão federal das policias estaduais e municipais, favorecendo a impunidade nos casos de abuso policial contra negros e outras minorias.
E não há nenhuma dúvida de que o presidente se aproveitaria de um atentado terrorista para atacar o Judiciário. Ele deixou isso bem claro ao escrever em sua conta no Twitter, após a suspensão judicial do veto migratório: “Como um juiz pode colocar nosso país em risco? Se algo acontecer, a culpa será dele e do sistema judicial”. Na noite do atentado da London Bridge, no dia 3 de junho, ele foi ainda mais longe: “O Judiciário tem que nos devolver os nossos direitos. Precisamos do veto de entrada como uma segurança extra!” No contexto de histeria coletiva e revolta que se instalaria depois de um ataque terrorista em solo americano, talvez os juízes não tenham a mesma coragem para barrar uma nova proibição à entrada de muçulmanos nos EUA.
Nesta foto tirada em 7 de abril de 2017 pela marinha americana, no Mar Mediterrâneo, o contratorpedeiro USS Porter (DDG 78) lança um míssil Tomahawk contra uma base aérea síria. O bombardeio foi uma retaliação a um terrível ataque com armas químicas realizado naquela mesma semana.
Foto: Mass Communication Specialist 3rd Class Ford Williams/U.S. Navy via AP

Choque bélico

A reação mais exagerada e letal de um governo a um ataque terrorista é se aproveitar do clima de medo para declarar guerra a outro(s) país(es). Não importa se o alvo não tem nenhuma relação com o atentado terrorista em questão; o Iraque não tinha nada a ver com o 11 de Setembro, mas foi invadido mesmo assim.
Os alvos mais prováveis de Trump estão no Oriente Médio, incluindo países como Síria, Iêmen, Iraque e, principalmente, Irã. Outro inimigo em potencial é a Coreia do Norte, sobre a qual o secretário de Estado americano, Rex Tillerson, afirmou que “estamos abertos a todas as opções”, se recusando a descartar a possibilidade de um ataque preventivo.
Os colaboradores mais íntimos de Trump – principalmente aqueles oriundos do setor de defesa – têm diversas razões para apoiar mais ações militares. O lançamento de mísseis contra a Síria em abril de 2017 – realizado sem a aprovação do Congresso e, portanto, ilegal, segundo alguns especialistas – rendeu-lhe a cobertura midiática mais positiva de seu mandato até então. Os assessores mais próximos do presidente aproveitaram para declarar que o ataque era uma prova de que não havia nada de indecoroso nas relações entre a Casa Branca e a Rússia.
Mas há uma outra razão, menos evidente, para usar uma crise de segurança como desculpa para entrar em guerra: essa é a maneira mais rápida e eficaz de forçar um aumento no preço do petróleo, principalmente se o conflito prejudicar o fornecimento global da commodity. Isso traria grandes vantagens para gigantes como a Exxon Mobil, cujos lucros diminuíram drasticamente com a queda do preço desse produto. Feliz coincidência para a Exxon: Rex Tillerson, antigo diretor-executivo da empresa, é o atual secretário de Estado dos EUA. Tillerson trabalhou na Exxon durante praticamente toda a sua carreira – 41 anos; ao se aposentar, ele fechou um acordo com a empresa para receber espantosos US$ 180 milhões.
Além de empresas como a Exxon, talvez o único beneficiado com um aumento do preço do petróleo advindo da instabilidade global seria a Rússia de Vladimir Putin, um país que depende da venda dessa matéria-prima e que tem atravessado uma crise econômica desde a queda dos preços no mercado internacional. A Rússia é o maior exportador mundial de gás natural e o segundo maior de petróleo – depois da Arábia Saudita. Uma alta de preços seria uma boa notícia para Putin; antes de 2014, metade das receitas do Estado russo era proveniente do setor de óleo e gás.
Porém, quando os preços desabaram, a Rússia perdeu centenas de bilhões de dólares, uma catástrofe econômica com sérias consequências para o povo russo. Segundo o Banco Mundial, em 2015, os salários reais caíram quase 10% no país; o rublo perdeu quase 40% de seu valor e o número de pobres subiu de 3 para 19 milhões. Putin tenta manter sua imagem de homem forte, mas a crise econômica o deixa vulnerável.
Também já se falou muito sobre o vultoso acordo entre a Exxon Mobil e petroleira estatal russa Rosneft para a extração de petróleo no Ártico. Putin chegou a se gabar do montante envolvido – meio trilhão de dólares. É verdade que a negociação saiu dos trilhos com as sanções americanas à Rússia; porém, apesar da postura conflitante dos dois países em relação à Síria, é possível que Trump decida suspender as sanções e abrir caminho para a concretização do negócio, o que ajudaria a Exxon a superar seu momento difícil.
No entanto, mesmo se as sanções forem retiradas, ainda haveria outra pedra no caminho do projeto: o baixo preço do petróleo. Tillerson fechou o acordo com a Rosneft em 2011, quando o preço do barril chegou a altíssimos US$ 110. Em um primeiro momento, o consórcio faria a prospecção de petróleo nas águas ao norte da Sibéria, onde a extração seria difícil e cara. Para ser viável economicamente, o petróleo do Ártico teria que vendido a cerca de US$ 100 o barril – ou até mais caro. Portanto, mesmo se as sanções forem suspensas pelo governo Trump, o projeto da Exxon e da Rosneft só valerá a pena se o preço do petróleo estiver suficientemente alto. Consequentemente, qualquer instabilidade que empurre a cotação do petróleo para cima seria do interesse de muita gente.
Se o barril de petróleo ultrapassar a marca dos US$ 80, a corrida desenfreada para encontrar, extrair e queimar combustíveis fósseis vai recomeçar, mesmo se for preciso perfurar nossas calotas polares em derretimento ou extrair petróleo altamente poluente das areias betuminosas. Se isso acontecer, podemos acabar perdendo a nossa última chance de evitar uma catástrofe climática.
Portanto, evitar um conflito internacional e deter as mudanças climáticas são duas batalhas de uma mesma guerra..
Uma tela mostra dados financeiros no dia 22 de janeiro de 2008.
Foto: Cate Gillon/Getty Images

Choque econômico

Uma das marcas do projeto econômico de Trump tem sido o frenesi de desregulamentação financeira, o que aumenta em grande medida o risco de novos choques e desastres econômicos. O presidente americano anunciou que pretende revogar a Lei Dodd-Frank, peça fundamental da reforma financeira implementada pelo governo Obama após o colapso bancário de 2008. Embora não seja rigorosa o suficiente, a lei impede que a especulação desenfreada de Wall Street crie novas bolhas, que, quando explodem, causam novos choques econômicos.
Trump e sua equipe sabem disso, mas os lucros obtidos com as bolhas são sedutores demais para que eles se importem. Além do mais, os bancos nunca foram realmente à falência, e continuam sendo “grandes demais para quebrar”. Trump sabe que, no caso de outra grande crise, teremos outro resgate das instituições financeiras, exatamente como em 2008. O presidente chegou mesmo a decretar a revisão de um mecanismo da Lei Dodd-Frank criado para evitar que o contribuinte pague a conta de um novo resgate aos bancos. Visto a quantidade de ex-executivos do Goldman Sachs no governo Trump, isso é um péssimo sinal.
Alguns membros do governo também veem a crise econômica como uma oportunidade para atacar certos programas sociais. Durante a campanha, Trump seduziu o eleitorado com a promessa de não mexer na Seguridade Social nem no Medicare, o plano de saúde público dos EUA. Mas isso pode ser impraticável devido à grande redução de impostos que vem por aí, embora o governo aplique uma matemática fictícia para argumentar que o crescimento econômico gerado compensaria as perdas. O orçamento que foi proposto já é um primeiro ataque à Seguridade Social, e uma crise econômica poderia dar a Trump um conveniente pretexto para descumprir suas promessas. Em uma conjuntura pintada como apocalipse econômico, Betsy DeVos poderia até realizar seu sonho de substituir as escolas públicas por um sistema de escolas charter e vouchers.
A camarilha de Trump tem uma longa lista de políticas que jamais seriam aprovadas em tempos de normalidade. No início do mandato, por exemplo, Mike Pence se reuniu com o governador do Wisconsin, Scott Walker, que lhe contou como havia conseguido retirar o direito à negociação coletiva dos sindicatos do setor público no estado, em 2011. E qual foi o argumento utilizado para a aprovação da medida? A crise fiscal do governo estadual, o que levou o colunista Paul Krugman, do New York Times, a declarar que “a Doutrina do Choque está sendo aplicada de forma escancarada” no Wisconsin.
Juntando as peças do quebra-cabeça, o cenário fica claro: a barbárie econômica do governo provavelmente não será realizada no primeiro ano de mandato. Ela vai se revelar mais tarde, quando, inevitavelmente, as crises orçamentária e financeira chegarem. Só então, em nome da salvação fiscal do governo – e quem sabe da economia inteira –, a Casa Branca começará a realizar os desejos mais polêmicos das grandes corporações.
Gado pastando perto de um incêndio florestal nas cercanias de Protection, Kansas. (7 de março de 2017)
Foto: Bo RadeWichita Eagle/TNS/Getty Images

Choque ambiental

Da mesma forma que as políticas de segurança nacional e econômica do governo certamente causarão e aprofundarão crises, o foco de Trump em aumentar a produção de combustíveis fósseis, desmontar a legislação ambiental dos EUA e sabotar o Acordo de Paris abre caminho para novos acidentes industriais e futuras catástrofes climáticas. O dióxido de carbono lançado na atmosfera leva cerca de 10 anos para ter um efeito sobre o aquecimento global; portanto, as piores consequências das políticas de Trump só devem ser sentidas quando ele não estiver mais no poder.
Mesmo assim, o aquecimento global já está em um nível tão alarmante que nenhum presidente pode chegar ao fim do mandato sem enfrentar grandes desastres naturais. Donald Trump mal havia completado dois meses na função quando teve que lidar com grandes incêndios florestais no centro-oeste dos EUA. A mortandade de gado foi tão grande que um pecuarista descreveu a situação como “o nosso Furacão Katrina”.
Trump não demonstrou preocupação com os incêndios; não escreveu um tuíte sequer. Porém, quando uma supertempestade atingir o litoral do país, teremos uma reação muito diferente desse presidente que conhece o valor dos imóveis à beira-mar, despreza os pobres e investe apenas em construções para os mais abastados. A grande preocupação é com a repetição do ataque às escolas públicas e à habitação social e do vale-tudo imobiliário que se seguiram ao desastre – o que não é nada improvável, visto o papel central do vice-presidente Mike Pence na elaboração das políticas pós-Katrina.
Mas os grandes beneficiados da era Trump nessa área serão, sem dúvida, as empresas de resgate particular, direcionadas à clientela mais rica. Quando eu estava escrevendo “A Doutrina do Choque”, o setor ainda estava engatinhando, e muitas empresas não sobreviveram. Uma delas era a Help Jet, sediada na cidade queridinha de Trump, West Palm Beach. Enquanto esteve em atividade, a Help Jet ofereceu serviços de resgate VIP para quem pagasse uma taxa de associação.
Quando um furacão se aproximava, a Help Jet mandava limusines para buscar seus clientes, fazia reservas em hotéis cinco-estrelas e spas em algum lugar seguro e despachava-os em jatos particulares. “Sem fila nem multidão; apenas uma experiência de primeira classe que transforma um problema em um feriado”, dizia um dos anúncios da empresa. “Aproveite a sensação de evitar o pesadelo dos planos de evacuação em caso de furacão”, sugeria outra propaganda. Em retrospectiva, parece que a Help Jet, longe de ter superestimado o potencial desse nicho, estava apenas à frente de seu tempo. Atualmente, no Vale do Silício e em Wall Street, os mais abastados e temerosos se preparam para o caos climático e social comprando vagas em abrigos subterrâneos personalizados no Kansas – protegidos por mercenários fortemente armados – e construindo refúgios nas alturas da Nova Zelândia. E, lá, só se chega de jatinho particular, é claro.
O que é realmente preocupante nesse fenômeno da “sobrevivência de luxo” – além da esquisitice da coisa toda – é que, enquanto os ricos criam seus suntuosos refúgios particulares, há cada vez menos investimentos em infraestruturas de prevenção e resposta a desastres que possam ajudar a todos independentemente da renda. E foi exatamente isso que causou tanto sofrimento desnecessário em Nova Orleans depois da passagem do Katrina.
Os EUA estão caminhando cada vez mais rápido em direção a um sistema privado de resposta a desastres. Em estados como Califórnia e Colorado, mais suscetíveis a incêndios, empresas seguradoras oferecem um serviço especial: em caso de incêndio florestal, uma equipe de bombeiros particulares é despachada para aplicar um tratamento antichamas nas mansões dos clientes, deixando as outras à mercê do fogo.
A Califórnia nos oferece uma amostra do que ainda vem por aí. O estado emprega no combate a incêndios mais de 4.500 presidiários, que recebem 1 dólar por hora para arriscar a vida na linha de frente e cerca de 2 dólares por dia no acampamento. Segundo estimativas, a Califórnia economiza bilhões de dólares por ano graças a esse programa – um produto emblemático da mistura entre austeridade, encarceramento em massa e mudança climática..
Migrantes e refugiados se aglomeram perto do local de travessia na fronteira nas proximidades do povoado grego de Idomeni, no dia 5 de março de 2016, onde milhares de pessoas esperam para entrar na Macedônia.
Foto: Dimitar Dilkoff/AFP/Getty Images

Um mundo de zonas verdes e zonas vermelhas

Com o desenvolvimento de soluções privadas para catástrofes naturais, os setores mais abastados da sociedade têm menos motivos para pressionar o governo por mudanças na política ambiental e evitar um futuro ainda mais catastrófico para a vida na Terra. Isso pode explicar por que Trump está tão determinado a acelerar a crise climática.
Por enquanto, a discussão sobre os recuos da política ambiental de Trump gira em torno de um suposto racha no governo entre os céticos – aqueles que negam as mudanças climáticas, como o próprio Trump e o chefe da Agência de Proteção Ambiental, Scott Pruitt – e aqueles que reconhecem o fator humano do aquecimento global, como Rex Tillerson e Ivanka Trump. Mas isso é irrelevante. O que todos os assessores de Trump têm em comum é a crença de que eles, seus filhos e seus pares estarão em segurança; que sua riqueza e contatos irão protegê-los do pior. Eles perderão alguns imóveis com vista para o mar, é verdade, mas isso não é nada que não possa ser substituído por uma bela mansão nas montanhas.
Essa despreocupação é uma tendência extremamente inquietante. Em uma era de desigualdade crescente, uma boa parte das nossas elites está se isolando física e psicologicamente do destino coletivo da humanidade. Esse isolacionismo, ainda que apenas mental, permite que os ricos não só ignorem a necessidade de proteger o meio ambiente, mas também se aproveitem dos desastres e do clima de instabilidade para lucrar ainda mais. Estamos indo em direção a um mundo dividido entre “zonas verdes” fortificadas para os ricos e “zonas vermelhas” para o resto. E “zonas negras” – prisões secretas – para quem não estiver satisfeito. Europa, Austrália e América do Norte estão fortificando (e privatizando) cada vez mais as fronteiras para se isolar daqueles que fogem de seus países para sobreviver. Muitas vezes, os próprios países que agora estão se fechando são em grande parte responsáveis pelas ondas de imigração, seja por meio de acordos comerciais predatórios, guerras ou desastres ambientais intensificados pelas mudanças climáticas.
De fato, se mapearmos as áreas que mais sofrem com conflitos armados atualmente – dos sangrentos campos de batalha no Afeganistão e Paquistão à Líbia, Iêmen, Somália e Iraque –, um fato nos salta aos olhos: esses são alguns dos lugares mais quentes e secos do planeta; são regiões à beira da fome e da seca, dois catalisadores de conflitos, que, por sua vez, ajudam a produzir migrantes.
E a mesma tendência a diminuir a humanidade do “outro” – tornando-nos insensíveis às vítimas civis de bombardeios em países como Iêmen e Somália – agora está sendo aplicada aos refugiados, cuja busca por segurança é vista como a invasão de um exército ameaçador. É nesse contexto que, de 2014 para cá, 13 mil pessoas que tentavam chegar à Europa morreram afogadas no Mediterrâneo, muitas delas crianças e bebês; é nesse contexto que a Austrália está tentando normalizar o encarceramento de refugiados em centros de detenção nas ilhas de Nauru e Manus, em condições classificadas por diversas organizações humanitárias como análogas à tortura. É nesse mesmo contexto que o gigantesco acampamento de refugiados de Calais, recém-desmantelado, foi apelidado de “selva” – da mesma forma que as vítimas abandonadas do Katrina foram chamadas pela mídia de direita de “animais”.
O dramático crescimento nas últimas décadas do nacionalismo de direita, do racismo, da islamofobia e do supremacismo branco em geral está intimamente ligado às novas tendências geopolíticas e ecológicas. A única maneira de justificar essas formas bárbaras de exclusão é apostando em teorias de hierarquização racial, que determinam quem merece ou não ser excluído das “zonas verdes”. É isso que está em jogo quando Trump chama os mexicanos de estupradores e “_hombres_maus”; quando os refugiados sírios são tachados de terroristas em potencial; quando a política conservadora canadense Kellie Leitch defende um teste de “valores canadenses” para imigrantes; ou quando sucessivos primeiros-ministros australianos classificam os sinistros campos de detenção como uma alternativa “humanitária” à morte no mar.
Esse é o resultado típico da instabilidade global em nações que nunca repararam os crimes do seu passado; em países que insistem em ver a escravidão e o roubo das terras indígenas como meros solavancos em uma história gloriosa. Afinal de contas, a separação entre zonas verdes e vermelhas já existia na sociedade escravocrata: os bailes na casa dos senhores aconteciam a poucos metros da tortura nos campos. E tudo isso nas terras violentamente arrancadas dos índios – terra sobre a qual a riqueza norte-americana foi construída. Agora, as mesmas teorias de hierarquia racial que justificaram tanta violência em nome do progresso estão ressurgindo à medida que a riqueza e o conforto que elas proporcionaram começa a se desgastar.
Trump é apenas uma manifestação precoce desse desgaste. Mas ele não é o único. E não será o último.
Moradores da favela da Mangueira assistem de longe aos fogos de artifício da cerimônia de abertura das Olimpíadas de 2016, no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. (5 de agosto de 2016)
Foto: Mario Tama/Getty Images

Uma crise de imaginação

Cidades fortificadas exclusivas para os ricos, isolados do resto do mundo em luta pela sobrevivência. É sintomático que esse seja um tema recorrente de diversos filmes de ficção científica atualmente, como Jogos Vorazes, em que o decadente Capitólio enfrenta as colônias desesperadas; e Elysium, em que uma elite vive em uma estação espacial acima de uma enorme e violenta favela. Esta é uma visão entranhada na mitologia das grandes religiões ocidentais, com suas épicas narrativas sobre dilúvios purificadores e um pequeno grupo de eleitos; histórias de infiéis ardendo em chamas enquanto os justos se refugiam em uma cidade fortificada nos céus. A dicotomia entre vencedores e condenados está tão presente no nosso imaginário coletivo que é um verdadeiro desafio pensar em outros finais para a narrativa da humanidade; um final em que a raça humana se una em um momento de crise em vez de se separar; um final em as fronteiras sejam derrubadas em vez de multiplicadas.
Afinal de contas, o objetivo de toda essa tradição narrativa nunca foi simplesmente descrever o que inevitavelmente acontecerá com a humanidade. Não, essas histórias são um aviso, uma tentativa de abrir os nossos olhos para que possamos evitar o pior.
“Nós temos a capacidade de dar ao mundo um novo começo”, disse Thomas Paine muitos anos atrás, resumindo em poucas palavras o desejo de fugir de um passado que está no cerne tanto do colonialismo quanto do “sonho americano”. Porém, a verdade é que nós _não temos_esse poder divino de reinvenção; nunca o tivemos. Temos que conviver com nossos erros e problemas, bem como respeitar os limites do nosso planeta.
Mas o que nós temos é a capacidade de mudar, de reparar velhas injustiças e a nossa relação com o próximo e com o planeta em que vivemos. Essa é a base da resistência à Doutrina do Choque.
Adaptado do novo livro da Naomi Klein, _No Is Not Enough: Resisting Trump’s Shock Politics and Winning the World We Need. _O livro será publicado em novembro de 2017 pela Bertrand Brasil. Foto do topo: Bombeiros do Kansas e de Oklahoma lutam contra um incêndio perto de Protection, no Kansas. (6 de março de 2017)
Tradução: Bernardo Tonasse
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